O instituto Quaest divulgou nesta sexta-feira, 25 de setembro de 2026, o primeiro levantamento de intenção de voto para o governo de Sergipe no segundo turno das eleições estaduais. O atual governador, Fábio Mitidieri (PSD), aparece com 43% das intenções de voto, contra 34% do ex-prefeito de Lagarto, Valmir de Francisquinho (PL). A margem de erro é de 3 pontos percentuais para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo SE-08234/2026.
O cenário indica uma disputa enxuta, mas com vantagem consolidada para Mitidieri, que busca a reeleição após um mandato marcado por obras de infraestrutura viária e pela tentativa de reequilibrar as contas do estado. Foram entrevistados 1.200 eleitores entre os dias 20 e 24 de setembro.
A liderança de Mitidieri não surpreende analistas de mercado. O governador, embora filiado a um partido de centro (PSD), adotou uma gestão fiscal mais austera que seus antecessores. Reduziu o déficit orçamentário de R$ 1,2 bilhão (2022) para R$ 400 milhões projetados para 2026, segundo dados do Tesouro Estadual. A dívida consolidada do estado caiu de 68% para 52% da Receita Corrente Líquida no mesmo período. Não se trata de milagre: trata-se de corte de cargos comissionados, revisão de contratos de terceirização e fim de subsídios a empresas sem retorno comprovado.
POR QUE ISSO IMPORTA Sergipe é o menor estado do Brasil em extensão territorial, mas enfrenta problemas estruturais comuns ao Nordeste: dependência de transferências federais, baixa produtividade do setor privado e um funcionalismo público que consome 62% da receita corrente líquida. Em um estado onde o Estado gasta mal e tributa demais — o ICMS sergipano está entre os cinco mais altos do país —, a população começa a punir candidatos que prometem mais do mesmo.
Valmir de Francisquinho, ex-prefeito de Lagarto, tenta capitalizar o desgaste natural de um governo de oito anos (Mitidieri foi vice e assumiu em 2022). Sua campanha tem focado em segurança pública e assistência social, mas sem apresentar um plano de corte de gastos ou de desburocratização para atrair investimentos privados. Em declaração à imprensa local na última terça-feira, Valmir afirmou que "Sergipe precisa de um governo que olhe para o povo, não para planilhas". A frase, embora politicamente eficaz, ignora que planilhas bem-feitas são o que permite ao governo pagar salários em dia.
ANÁLISE FORTIS A vantagem de Mitidieri não é ideológica. É pragmática. O governador não fez reformas liberais profundas — o estado ainda possui uma máquina pesada e uma carga tributária sufocante. Mas, dentro do possível, ele entregou o básico: estradas asfaltadas, escolas reformadas e folha de pagamento em dia. Em um país onde 7 em cada 10 prefeituras estão no vermelho, o eleitor sergipano parece ter optado pela segurança do conhecido.
O dado mais revelador da Quaest, no entanto, está nos números de rejeição. Mitidieri tem 28% de rejeição; Valmir, 32%. A diferença é pequena, mas mostra que o ex-prefeito ainda não conseguiu se livrar da imagem de gestor de uma cidade pequena (Lagarto tem 100 mil habitantes) diante de um estado de 2,4 milhões de habitantes. A falta de experiência em administração estadual pesa.
CONTRAPONTO Por outro lado, o governador Mitidieri enfrenta críticas de setores produtivos locais. A Federação das Indústrias do Estado de Sergipe (FIES) tem alertado, em nota técnica divulgada em agosto, que a carga tributária estadual continua inibindo a instalação de novas empresas. O Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) médio em Sergipe é de 19,5%, contra 17,5% da média nordestina. Ou seja: o estado gasta menos, mas ainda tributa demais para o tamanho da economia. O governo alega que a redução de alíquotas depende da compensação federal, mas o fato é que não houve proposta concreta nesse sentido.
Valmir, por sua vez, tenta surfar a onda bolsonarista em Sergipe — estado onde o ex-presidente Jair Bolsonaro teve 49% dos votos em 2022. O ex-prefeito recebeu o apoio do PL nacional e de setores evangélicos, mas ainda não conseguiu traduzir esse capital político em propostas econômicas viáveis. Em entrevista à Rádio Fan FM de Aracaju no dia 18 de setembro, Valmir afirmou que "vai rever todos os contratos de concessão" sem especificar quais, gerando incerteza no setor privado.
Por Renan Filho · 2026-09-25