Pesquisa Quaest divulgada nesta sexta-feira, 25, encomendada pela Rede Amazônica, mostra o deputado federal Dr. Furlan (PL) na liderança isolada na disputa pelo governo do Amapá em 2026. No cenário estimulado, o candidato conservador aparece com 53% das intenções de voto, contra 40% do atual governador Clécio Luís (Solidariedade), que busca a reeleição. Brancos e nulos somam 5%, e não souberam responder, 2%. Os dados consolidam uma vantagem de 13 pontos percentuais que, embora ainda dentro da margem de erro de 3,2 pontos para mais ou para menos em cenários específicos, aponta para uma tendência clara de rejeição ao atual modelo de gestão.
O levantamento foi realizado entre os dias 19 e 22 de setembro, com 1.200 eleitores em 14 municípios do estado, incluindo a capital Macapá e cidades do interior. A margem de erro geral é de três pontos percentuais, e o nível de confiança é de 95%. Os números contrariam a narrativa do Palácio do Setentrião, que vinha apostando em uma recuperação da imagem do governador após o pacote de obras federais anunciado para o estado. Mas os dados de rejeição direta contam outra história.
A rejeição à atual administração surge como o principal combustível da candidatura de Furlan. O levantamento mostra que 49% dos eleitores avaliam a gestão de Clécio Luís como ruim ou péssima, contra 34% que a consideram ótima ou boa. O percentual de desaprovação é ainda maior quando se analisa a área econômica: 58% dos entrevistados afirmam que a situação financeira do estado piorou nos últimos quatro anos. O Amapá, que depende historicamente de transferências constitucionais e de investimentos federais, segue patinando em indicadores de emprego e renda.
O contexto nacional também joga a favor de Furlan. O cenário de alta de impostos e de expansão da máquina pública, capitaneado pelo atual governo federal, contrasta com a defesa de um Estado enxuto e de reformas estruturais que o deputado tem feito em seus discursos. Em suas aparições públicas e publicações nas redes sociais, Furlan tem repetido um diagnóstico simples: o Amapá precisa de um choque de gestão, com abertura de mercado, desburocratização e atração de investimento privado, em vez de depender de Brasília para fechar suas contas.
A vantagem de Furlan se torna ainda mais expressiva quando o recorte é por escolaridade e faixa etária. Entre eleitores com ensino superior completo, ele alcança 61%, contra 33% do governador. Entre os mais jovens, de 16 a 24 anos, a vantagem é de 55% a 38%. O único segmento onde Clécio ainda mantém vantagem é entre eleitores com renda familiar de até dois salários mínimos, mas mesmo ali a diferença é de apenas cinco pontos. O cenário revela um esgotamento da base de sustentação do atual governo junto às classes médias e urbanas.
A pesquisa também indica que a transferência de votos do ex-presidente Jair Bolsonaro e do atual presidente Lula tem puxado o embate para um plano nacional. O eleitorado amapaense, acostumado a decidir eleições estaduais com lógica própria, parece agora reproduzir a polarização do país. Enquanto Clécio busca colar sua imagem aos programas sociais do governo federal, Furlan avança ao associar o adversário ao aumento de impostos e à ineficiência do estado. A estratégia, ao que tudo indica, tem funcionado.
Por que isso importa? Porque o Amapá é um dos estados mais dependentes do Fundo de Participação dos Estados (FPE) e de emendas parlamentares, um modelo que a linha editorial crítica ao estatismo aponta como gerador de estagnação. A possível vitória de Furlan, um nome ligado ao liberalismo econômico na região Norte, pode representar o início de uma mudança de paradigma em um estado que historicamente se acostumou à lógica do quanto pior para o serviço público, melhor para o discurso político.
Análise FORTIS: a vantagem de Furlan não é um acaso, é a consequência de um eleitor que percebe na prática o que a teoria econômica já denuncia há décadas. O atual governo, ao ampliar a máquina pública e manter uma carga tributária elevada sobre o setor produtivo local, sufocou pequenos empreendedores e desestimulou novos investimentos. O Amapá, apesar de seu potencial em minérios, madeira de manejo sustentável e energia limpa, continua refém de um ciclo de dependência que só se quebra com reformas estruturais. O eleitor parece ter entendido isso antes das elites políticas.
Contraponto: é preciso registrar que faltam mais de 14 meses para a eleição, e o cenário pode mudar. A pesquisa Quaest, em qualquer recorte, é uma fotografia de um momento de alta rejeição ao status quo. Clécio Luís terá o palanque federal e acesso a emendas para tentar reverter a tendência. Além disso, a margem de erro e o alto índice de não-resposta em cenários espontâneos exigem cautela. Se a economia do estado melhorar artificialmente com injeção de recursos federais, o quadro pode se estreitar. Mas a tarefa do atual governador é árdua: reverter um sentimento de deterioração que parece já ter se cristalizado.
Por Renan Filho · 2026-09-25