O Instituto Quaest divulgou nesta quarta-feira, 23 de setembro de 2026, a mais recente pesquisa de intenção de voto para o governo do Ceará. No cenário estimulado para o primeiro turno, Ciro Gomes (PDT) aparece com 43% das intenções, enquanto o atual governador Elmano de Freitas (PT) registra 41%. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, configurando um empate técnico dentro da margem. Os votos brancos e nulos somam 9%, e 7% dos eleitores afirmaram não saber em quem votar.
O levantamento ouviu 1.200 eleitores em 40 municípios cearenses entre os dias 19 e 22 de setembro. A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo CE-01589/2026. O dado mais relevante, contudo, não está apenas na dianteira nominal de Ciro, mas na composição do eleitorado: a rejeição a ambos os candidatos é elevada, com 38% dos entrevistados afirmando que não votariam em Elmano de jeito nenhum, enquanto 35% rejeitam Ciro.
**Contexto da disputa**
A corrida pelo Palácio da Abolição ocorre em um ambiente de forte polarização nacional entre o campo governista e a oposição. Ciro Gomes, ex-governador do Ceará e ex-ministro, tenta um retorno ao cargo que ocupou entre 2007 e 2010. Sua campanha tem se concentrado na crítica à gestão petista no estado, especialmente nas áreas de segurança pública e infraestrutura hídrica. Elmano de Freitas, por sua vez, busca a reeleição apoiado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tem alta aprovação no Nordeste, mas enfrenta o desgaste natural de oito anos consecutivos do PT no comando do estado (desde 2018, com Camilo Santana e, depois, Elmano).
A pesquisa também testou um cenário de segundo turno. Nele, Ciro Gomes venceria Elmano de Freitas por 47% a 43%, com 10% de indecisos. O resultado reforça a tese de que a eleição cearense será decidida nos detalhes, com a capacidade de cada candidato de atrair os eleitores que hoje rejeitam ambos.
**Por que isso importa para o Brasil**
O Ceará é um dos principais redutos eleitorais do PT no Nordeste. Uma eventual derrota de Elmano de Freitas representaria um duro golpe para a estratégia nacional do partido, que depende do desempenho nos estados nordestinos para compensar perdas no Sul e Sudeste. Além disso, o estado é frequentemente citado como exemplo de gestão fiscal petista, com o argumento de que o equilíbrio das contas públicas cearenses seria superior à média nacional. No entanto, dados do Tesouro Nacional de 2025 mostram que a dívida consolidada do Ceará cresceu 17% em termos reais desde 2022, enquanto a receita corrente líquida avançou apenas 9% no mesmo período. O gasto com pessoal, por sua vez, atingiu 52,3% da Receita Corrente Líquida (RCL), acima do limite de alerta da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), que é de 48,6%.
A campanha de Ciro Gomes tem explorado exatamente esses números, argumentando que o estado gasta mal e tributa demais. Dados da Secretaria da Fazenda do Ceará indicam que a carga tributária estadual, medida pela arrecadação de ICMS per capita, cresceu 23% entre 2020 e 2025, acima da inflação do período. Em contrapartida, indicadores de segurança pública, como a taxa de homicídios por 100 mil habitantes, recuaram apenas 5% nos últimos quatro anos, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
**Análise FORTIS: O voto útil contra a máquina**
O cenário apresentado pela Quaest é um retrato do eleitor cearense diante de uma escolha difícil. De um lado, Ciro Gomes representa o discurso do desenvolvimento econômico com forte apelo popular, mas carrega o peso de uma trajetória política errática e de alianças que muitas vezes contrariaram o discurso de independência. De outro, Elmano de Freitas é o herdeiro de uma máquina partidária consolidada, mas que precisa explicar por que, com tanto dinheiro arrecadado, o cidadão comum não percebe melhorias proporcionais na saúde, na segurança e na infraestrutura.
O dado de rejeição é particularmente revelador. Se 38% dos eleitores rejeitam Elmano, é porque a gestão petista não conseguiu converter o alto volume de gastos públicos em aprovação popular. A máquina funciona, mas não encanta. Ciro, por sua vez, tem uma rejeição de 35%, ainda alta, mas ligeiramente menor, o que lhe dá uma margem de manobra maior para buscar o eleitor indeciso que rejeita ambos.
Do ponto de vista do liberal-conservadorismo, a análise é clara: o estado do Ceará precisa de um choque de gestão que reduza a burocracia, incentive o empreendedorismo e corte privilégios do funcionalismo que consomem mais da metade da receita. A dívida crescente e o gasto com pessoal acima do limite legal são sinais de que o modelo atual é insustentável. Ciro Gomes, embora tenha um discurso mais desenvolvimentista do que liberal, sempre defendeu a meritocracia no serviço público e a atração de investimentos privados, o que pode ser um ponto de convergência com eleitores que desejam menos Estado e mais liberdade econômica.
**Contraponto**
É justo registrar que a pesquisa Quaest não é um resultado eleitoral. A margem de erro de dois pontos percentuais coloca ambos os candidatos em empate técnico. Além disso, a pesquisa foi realizada antes do início oficial do horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão, que começa em 1º de outubro. O PT tem um dos maiores tempos de propaganda entre todos os partidos, o que pode reverter o quadro a favor de Elmano. Ciro, por sua vez, depende mais de sua exposição espontânea e do recall de sua gestão anterior.
Outro fator é a presença de outros candidatos. Embora a pesquisa Quaest tenha testado apenas os dois nomes principais, há registro de candidaturas de outros partidos, como o PL e o Novo, que podem retirar votos de ambos e forçar um segundo turno. O PL, por exemplo, deve lançar um nome de centro-direita que pode atrair o voto antipetista e anti-Ciro.
**1. A pesquisa Quaest é confiável para prever o resultado da eleição no Ceará?**
Sim, a Quaest é um dos institutos mais respeitados do Brasil, com metodologia consolidada e histórico de acertos em eleições anteriores. No entanto, nenhuma pesquisa substitui a urna. A margem de erro de dois pontos percentuais e o fato de a coleta de dados ter ocorrido antes da propaganda eleitoral gratuita indicam que o cenário pode mudar significativamente nas próximas semanas. O eleitor deve usar a pesquisa como um termômetro, não como uma profecia.
**2. Como a gestão fiscal do Ceará se compara a de outros estados nordestinos?**
O Ceará está em uma posição intermediária. Estados como a Bahia e Pernambuco também enfrentam desafios com gasto de pessoal elevado, mas o Ceará se destaca negativamente pelo crescimento acelerado da dívida consolidada nos últimos três anos. Dados do Tesouro Nacional mostram que a dívida do Ceará, como proporção da receita corrente líquida, saltou de 58% em 2022 para 67% em 2025. Para efeito de comparação, a média dos estados nordestinos é de 62%. O estado gasta mais do que arrecada e compromete receitas futuras com despesas correntes, o que é uma receita para o desastre fiscal no médio prazo.
Por Renan Filho · 2026-09-23