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PT nega aval federal ao BRB e acusa governo do DF de ‘aventura estatizante’; mercado vê risco fiscal

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-20

O Partido dos Trabalhadores rechaçou qualquer possibilidade de o governo federal apoiar a transformação do Banco de Brasília (BRB) em instituição nacional. Em nota divulgada nesta sexta-feira, a legenda classificou a proposta do governador Ibaneis Rocha como ‘inviável e irresponsável’.

O PT jogou um balde de água fria nos planos do governo do Distrito Federal de obter aval federal para transformar o BRB em um banco de alcance nacional. Em nota oficial publicada no início da tarde, o partido afirmou que ‘não há qualquer chance’ de o Tesouro Nacional ou o Banco Central endossarem a operação, que consideram ‘uma aventura estatizante’.

O governador Ibaneis Rocha havia solicitado, em reunião com ministros da área econômica na última quarta-feira, que a União garantisse aportes de capital e linhas de crédito subsidiadas para o BRB expandir suas operações para todo o país. A proposta previa que o banco, hoje controlado pelo governo do DF, assumisse parte da carteira de crédito consignado do INSS e se tornasse agente financeiro de programas federais como o Minha Casa, Minha Vida.

Em declaração à imprensa, o líder do PT na Câmara, deputado José Guimarães (CE), disse que a ideia é ‘inviável do ponto de vista fiscal e jurídico’. Segundo ele, o governo Lula não pode ‘socorrer um banco estadual com recursos da União sem contrapartidas claras e sem autorização do Congresso’. Guimarães lembrou que o BRB já teve problemas de liquidez no passado e que uma expansão desordenada poderia gerar passivos para a União.

O Palácio do Planalto, por meio da Secretaria de Comunicação Social, também se manifestou. Em nota, afirmou que ‘não há estudos em curso para federalizar ou capitalizar o BRB’. A pasta acrescentou que qualquer proposta de ampliação do papel do banco ‘deve ser precedida de análise técnica do Banco Central e de aprovação do Conselho Monetário Nacional’.

**Contexto** O BRB é um banco público de médio porte, com ativos de cerca de R$ 40 bilhões, focado principalmente em crédito consignado para servidores públicos e em operações de tesouraria do governo do DF. Nos últimos anos, sob gestão de Ibaneis Rocha, o banco expandiu agressivamente sua carteira de crédito, o que elevou seu índice de inadimplência para 4,2% – acima da média do sistema financeiro.

A tentativa de obter o aval federal ocorre em meio ao aperto fiscal do DF, que enfrenta dificuldades para cumprir o teto de gastos local. Ibaneis vê no BRB uma alavanca para gerar receitas extraordinárias, mas o PT alega que a operação seria ‘um cheque em branco’ para o governo distrital.

**Por que importa** A discussão expõe o dilema clássico entre autonomia estadual e responsabilidade fiscal. Se a União cedesse às pressões do DF, abriria precedente para que outros bancos estaduais – como Banrisul, Banestes e Badesc – também pleiteassem socorro federal. O mercado reagiu mal à notícia: as ações do BRB (BRBQ3) caíram 2,3% no pregão de hoje, e o risco-Brasil medido pelo CDS subiu 5 pontos-base.

Para investidores, a mera possibilidade de o governo federal injetar dinheiro público em um banco regional já é sinal de ‘risco moral’. Conforme analistas do banco UBS, em relatório enviado a clientes, ‘uma operação como essa distorce a concorrência no setor financeiro e cria vantagens artificiais para um player estatal’.

**Análise FORTIS** A posição do PT, embora contraditória com seu histórico de estatização, é correta neste caso. O partido parece ter aprendido – ainda que tardiamente – que bancos públicos mal geridos são sorvedouros de recursos do contribuinte. A recusa em avalizar o plano de Ibaneis é uma rara vitória do bom senso fiscal em um governo que já gastou mais de R$ 100 bilhões em estatais nos últimos dois anos.

No entanto, a coerência do PT é questionável. Enquanto nega apoio ao BRB, o governo Lula segue turbinando o BNDES com aportes bilionários e mantém o Banco do Brasil sob forte influência política. Se o critério é o mérito, por que o BRB seria diferente? A resposta, suspeitamos, é puramente política: o DF é governado por um adversário (Ibaneis é do MDB, mas aliado de centro-direita), enquanto o BNDES serve aos projetos do PT.

**Contraponto** O governo do DF não aceitou a negativa passivamente. Em coletiva no final da tarde, o secretário de Fazenda do Distrito Federal, André Clemente, disse que o PT está ‘fazendo política com o desenvolvimento regional’. Ele afirmou que o BRB já opera em todo o Brasil por meio de parcerias com correspondentes bancários e que o aval federal apenas regularizaria uma situação de fato. Clemente também ameaçou judicializar o caso, argumentando que a União tem obrigação constitucional de apoiar o desenvolvimento do Distrito Federal, que é a capital da República.

O presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, em entrevista à Rádio CBN, defendeu que o banco tem ‘sólidos fundamentos’ e que o pedido de aval federal era ‘apenas para acelerar o crescimento, não para tapar buraco’. Ele citou o lucro líquido de R$ 1,2 bilhão em 2025 como prova de saúde financeira. No entanto, analistas apontam que esse lucro foi inflado por operações com títulos públicos do próprio governo do DF.

**1. O que exatamente o governo do DF pediu ao governo federal?** Segundo a ata da reunião entre Ibaneis Rocha e ministros, obtida pelo jornal O Estado de S. Paulo, o DF solicitou três coisas: (i) autorização do Banco Central para que o BRB pudesse operar como banco múltiplo em todo o território nacional sem necessidade de novas agências; (ii) aporte de R$ 5 bilhões do Tesouro Nacional em troca de participação acionária; e (iii) garantia da União para emissão de debêntures de infraestrutura. O PT rejeitou os três pontos.

**2. Qual o impacto para o contribuinte se o aval fosse concedido?** Em simulação feita pela Instituição Fiscal Independente (IFI), cada real injetado no BRB geraria, em cinco anos, um passivo estimado de R$ 1,30 para a União, considerando a taxa de inadimplência histórica do banco. Ou seja, o contribuinte brasileiro – especialmente das regiões Norte e Nordeste, que não se beneficiariam do banco – estaria subsidiando um banco local do DF. A FORTIS considera que isso seria inaceitável em um país com déficit primário de R$ 200 bilhões.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.