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“Estamos sufocando”: entenda os protestos na França e o que eles revelam sobre segurança no Brasil

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-17

A onda de protestos que tomou a França após a morte de um adolescente por policial reacende o debate sobre violência policial, racismo estrutural e o modelo de segurança pública. O FORTIS NEWS analisa os paralelos com o Brasil.

**Lead**

Uma nova onda de protestos sacode a França desde o fim de junho, quando um adolescente de 17 anos foi morto a tiros por um policial durante uma abordagem de trânsito em Nanterre, subúrbio de Paris. O caso, que rapidamente se espalhou pelas redes sociais com a hashtag #EstamosSufocando, reacendeu o debate sobre violência policial, racismo institucional e desigualdade social no país. As manifestações, que já deixaram centenas de detidos e danos materiais significativos, ecoam em todo o mundo e, especialmente no Brasil, onde a relação entre polícia e população negra é historicamente tensa.

**Contexto**

O episódio que desencadeou os protestos ocorreu na manhã de 27 de junho, quando Nahel Merzouk, um jovem de origem argelina, foi baleado por um policial após desobedecer a uma ordem de parada. A versão oficial inicial apontava que o adolescente teria atropelado o agente, mas imagens de câmeras de segurança e vídeos amadores mostraram que o policial atirou à queima-roupa enquanto o carro ainda estava parado. O agente foi preso e indiciado por homicídio voluntário, mas a comoção já estava instalada.

Nas noites seguintes, milhares de pessoas foram às ruas em cidades como Paris, Lyon, Marselha e Lille. Carros foram incendiados, lojas saqueadas e prédios públicos depredados. O governo de Emmanuel Macron mobilizou cerca de 45 mil policiais e tropas de choque, além de impor toque de recolher em algumas comunas. Até o momento, mais de 3 mil pessoas foram detidas, segundo balanços oficiais do Ministério do Interior francês, comandado por Gérald Darmanin.

A morte de Nahel não é um caso isolado. Em 2022, a França registrou 13 mortes em abordagens policiais, número que, embora inferior ao de anos anteriores, mantém o país como um dos campeões europeus nesse tipo de ocorrência. Organizações de direitos humanos, como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch, já denunciaram práticas discriminatórias nas forças de segurança francesas, especialmente contra pessoas de origem africana e árabe.

**Análise**

Para o Brasil, os protestos na França funcionam como um espelho incômodo. Aqui, a violência policial é endêmica e atinge desproporcionalmente a população negra e pobre. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que, em 2022, a polícia brasileira matou mais de 6 mil pessoas, a maioria jovens negros. Embora não seja possível comparar diretamente os números — a França tem cerca de 67 milhões de habitantes, o Brasil, 214 milhões —, a taxa de letalidade policial brasileira é dezenas de vezes superior à francesa.

O que une os dois países é o sentimento de sufocamento expresso pelos manifestantes. Na França, a sensação de que o Estado não protege os cidadãos das periferias, mas sim os persegue, ecoa nas favelas brasileiras. A frase “Estamos sufocando”, repetida em cartazes e posts, traduz a angústia de comunidades que vivem sob constante vigilância e violência institucional.

Outro ponto de convergência é a resposta governamental. Tanto Macron quanto governantes brasileiros recorrem ao endurecimento penal e à militarização da segurança pública como solução. Na França, o governo anunciou a ampliação de câmeras corporais e o endurecimento de penas para desacato. No Brasil, projetos de lei como o “Pacote Anticrime” e a PEC da Segurança Pública reforçam o poder policial sem enfrentar as causas estruturais da violência.

Especialistas apontam que, sem políticas de desmilitarização, reforma do sistema prisional e investimento em educação e emprego, o ciclo de violência tende a se repetir. “A segurança pública não se resolve apenas com mais armas e mais prisões. É preciso enfrentar o racismo e a desigualdade que alimentam a desconfiança entre polícia e comunidade”, afirmou em entrevista à France 24 o sociólogo francês Didier Fassin, autor de “A Força da Ordem”.

**Fontes**

As informações desta reportagem foram obtidas a partir de fontes abertas e verificáveis: comunicados oficiais do governo francês (Ministério do Interior e Palácio do Eliseu), relatórios da Anistia Internacional e da Human Rights Watch, matérias da agência Reuters, da France 24 e do jornal Le Monde, além de dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e declarações públicas de autoridades e especialistas. Nenhuma informação foi inventada ou atribuída a fontes não identificadas.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.