A propaganda eleitoral de Fernando Haddad exibida em rede nacional de televisão na noite de ontem trouxe um ataque direto ao governador Tarcísio de Freitas, principal adversário do petista na sucessão paulista. Na peça de 30 segundos, uma locução em off indaga: “Por que Tarcísio foge dos debates que discutem o futuro do Brasil?” Enquanto isso, imagens do governador aparecem editadas em preto e branco, com cortes rápidos de eventos oficiais e um áudio distorcido que sugere evasão.
A pergunta central do spot publicitário — por que Tarcísio não teria comparecido a um “grande debate nacional” —, no entanto, carece de lastro factual. Até o momento, não há registro de qualquer convite formal do comitê de Haddad ou de qualquer outra entidade para um debate com formato nacional. O debate citado na propaganda, segundo a campanha petista, seria uma “conversa sobre o Brasil” promovida por uma universidade particular, mas a instituição negou, em nota, que o evento tenha sido cancelado por falta de confirmação dos convidados.
Na prática, o governador Tarcísio de Freitas tem mantido uma agenda intensa de campanha no interior e na capital paulista. De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) compilados pela equipe do Fortis, entre 16 de agosto e 20 de setembro, Tarcísio participou de 12 dos 15 compromissos públicos que constam em sua agenda oficial divulgada — uma taxa de comparecimento de 80%. Entre os compromissos perdidos, um foi um evento fechado com sindicalistas (reagendado) e dois foram viagens a Brasília para reuniões com o ministro da Fazenda, que foram transferidas por conta da pauta do Congresso.
A propaganda de Haddad, portanto, constrói uma realidade paralela. Em vez de debater propostas concretas — como a redução de impostos defendida por Tarcísio ou o aumento de gastos sociais proposto pelo PT —, a campanha petista opta pelo jogo baixo da insinuação e da desinformação. Não é a primeira vez que a esquerda recorre a esse tipo de artifício: em 2022, a campanha de Lula utilizou inserções semelhantes para questionar a presença de Jair Bolsonaro em debates, mesmo após o então presidente ter participado de seis dos nove embates televisionados.
Por que isso importa? O cidadão paulista precisa de informações verificáveis para decidir seu voto. A propaganda eleitoral gratuita, financiada com dinheiro público via fundo partidário, deveria servir para apresentar propostas, e não para criar factoides que confundem o eleitor. A ausência de Tarcísio a um debate que sequer foi confirmado pela organização sugere, no mínimo, má-fé da coordenação de Haddad. Se a estratégia é criticar a “ausência”, o mínimo que se espera é que o evento exista de fato.
Análise Fortis: A tática de Haddad revela, antes de tudo, um diagnóstico alarmante para sua campanha. Candidato à reeleição, ele lidera as pesquisas, mas com vantagem dentro da margem de erro. Faltando menos de 40 dias para o pleito, recorrer a ataques pessoais em vez de expor um plano de governo é sinal de que a própria base do PT reconhece que não há números robustos para sustentar a reeleição com base em realizações. A propaganda de TV é o último recurso de quem não tem o que mostrar.
Contraponto: A assessoria de imprensa da campanha de Fernando Haddad, em resposta ao Fortis, afirmou que “a propaganda tem caráter crítico e visa alertar a população sobre o desprezo do governador pelo debate público”. A nota ainda cita que Tarcísio teria recusado um convite para participar de um debate sobre segurança pública na capital, mas não apresenta data, nem comprovação do convite formal. Até o fechamento desta edição, a organização do suposto debate não se manifestou oficialmente.
Por Renan Filho · 2026-09-23