A manhã desta sexta-feira, 19, começou com um movimento incomum na zona sul de São Paulo: agentes da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo cumpriram mandado de prisão temporária contra o vereador Milton Leite, presidente da Câmara Municipal e um dos maiores expoentes do União Brasil no estado. A ação, autorizada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, integra a Operação Fim da Linha, que investiga um esquema de cobrança de propina em contratos de transporte público na capital paulista. Leite, que nega qualquer irregularidade, foi levado para o 1º Distrito Policial, na zona norte, onde prestou depoimento e foi liberado após pagamento de fiança de R$ 200 mil, conforme confirmou a assessoria de imprensa do vereador em nota oficial.
A prisão, embora temporária e sem condenação, ocorre em um momento delicado para o União Brasil, que já enfrenta uma crise interna nacional com a saída de deputados federais para outras siglas e a queda de braço entre alas ligadas ao ex-prefeito de São Paulo, João Doria, e o grupo do ex-presidente Jair Bolsonaro. Leite, que comanda o diretório municipal da legenda desde 2023, é considerado um dos principais articuladores do centrão na capital, com trânsito entre o mercado financeiro e o setor de infraestrutura. A defesa de Leite, em nota, classificou a operação como "mera formalidade processual" e disse que o vereador sempre colaborou com as investigações.
O contexto da operação remonta a denúncias de delatores da extinta Odebrecht, que apontaram pagamentos indevidos a agentes públicos paulistanos em contratos de ônibus municipais. Documentos apreendidos na residência do vereador, segundo informou o MP-SP em coletiva de imprensa, indicam movimentações atípicas em contas de parentes e empresas de fachada. A prisão de Leite, no entanto, não é um caso isolado: nos últimos 18 meses, pelo menos quatro vereadores de São Paulo foram alvos de mandados de busca e apreensão por suspeitas de corrupção, o que evidencia uma cultura de impunidade que o sistema de Justiça tenta reverter, ainda que tardiamente.
Por que isso importa: a permanência de Leite em cargos de comando no União Brasil, incluindo a presidência municipal e a vaga na executiva estadual, torna-se insustentável diante da pressão da opinião pública e da necessidade de a legenda se apresentar como um partido de costumes e de mercado. Em publicação nas redes sociais, o deputado federal Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente e filiado ao PL, ironizou a situação: "Enquanto isso, o centrão segue comendo pelas beiradas, e o contribuinte paga a conta." A fala, embora de um adversário político, reflete o desgaste do grupo de Leite, que sempre se apresentou como defensor da redução do Estado e da eficiência administrativa.
A análise FORTIS, contudo, vai além do aspecto criminal e destaca o impacto econômico da prisão. Em um ambiente de alta taxa de juros e de escassez de crédito, a incerteza política gerada pela operação tende a elevar o risco-país e a afastar investidores do setor de infraestrutura, sobretudo em São Paulo, que concentra cerca de 30% do PIB nacional. O mercado, que já cobrava uma postura mais firme do União Brasil em relação a pautas liberais, como a reforma administrativa, agora vê o partido se enfraquecer justamente em um momento em que a Câmara Municipal de São Paulo discute a renovação de concessões de transporte. A eventual saída de Leite da presidência da Câmara, que pode ocorrer nas próximas semanas, abriria um vácuo de poder que seria preenchido por forças menos alinhadas ao setor produtivo, como o PT e o PSOL, que defendem a estatização de serviços.
É preciso, porém, ponderar: a prisão de Leite, embora grave, não é uma condenação, e o princípio da presunção de inocência deve ser respeitado. O vereador, que está em seu sexto mandato, já foi absolvido em outras ocasiões por falta de provas, e sua defesa argumenta que as acusações são uma retaliação política de adversários que perderam a eleição municipal de 2024. Em entrevista à rádio CBN, o advogado criminalista José Roberto Batochio, que não representa Leite, mas acompanha o caso, afirmou que "a Justiça brasileira tem usado a prisão temporária como instrumento de constrangimento, o que fere o Estado de Direito". A declaração, embora polêmica, encontra eco em parte da classe política, que vê na operação uma seletividade penal que atinge apenas os que estão no centro do poder.
A situação de Leite, portanto, é um teste para o União Brasil e para o próprio sistema político brasileiro. Se a legenda, que se autointitula "o partido da liberdade", não souber separar o joio do trigo, corre o risco de perder o protagonismo no cenário nacional, sendo engolido por siglas mais ágeis e menos comprometidas com a ética. Para o liberalismo, o caso é um alerta: a liberdade econômica e a segurança jurídica não podem coexistir com a impunidade de agentes públicos que usam a máquina estatal para benefício próprio. O caminho, como sempre, é o fortalecimento das instituições e a punição exemplar dos maus gestores, sem, contudo, transformar o Judiciário em um instrumento de vingança política.
Por Renan Filho · 2026-09-22