**Lead**
O presidente da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), pastor **Roberto Brasileiro**, declarou publicamente que, embora a denominação mantenha veto institucional a apoio eleitoral formal, considera que a ex-primeira-dama **Michelle Bolsonaro** representa um perfil alinhado aos valores cristãos e sugeriu que os fiéis votem nela nas eleições presidenciais de 2026. A declaração ocorreu durante um painel sobre “Fé e Política” promovido por uma associação evangélica, em São Paulo, no último dia 28 de setembro. A fala gerou caloroso debate entre lideranças eclesiásticas e analistas políticos, que enxergam na defesa nominal uma ruptura com a tradição de neutralidade partidária da IPB.
**Contexto**
A Igreja Preservada do Brasil, uma das maiores denominações protestantes históricas do país, possui em seu estatuto uma cláusula que proíbe a instituição de declarar apoio ou oposição a candidatos ou partidos políticos. O veto visa preservar a unidade doutrinária e evitar que divergências partidárias fragmentem a comunidade. Nos últimos anos, contudo, lideranças locais têm pressionado por um posicionamento mais explícito diante do avanço de pautas que consideram contrárias aos valores bíblicos, como a legalização do aborto e a ampliação dos direitos LGBTQIA+.
Michelle Bolsonaro, evangélica e esposa do ex-presidente Jair Bolsonaro, tem se destacado como oradora em eventos religiosos e construído uma base de apoio entre pastores e fiéis. Embora não tenha confirmado oficialmente sua candidatura, pesquisas internas de partidos de centro-direita indicam que seu nome é cogitado como alternativa ao ex-presidente, que está inelegível até 2030 por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A possível candidatura de Michelle representa, para setores conservadores, uma oportunidade de manter a agenda bolsonarista com um rosto feminino e de forte apelo religioso.
**Análise**
A declaração do pastor Roberto Brasileiro ocorre em um momento de reconfiguração do eleitorado evangélico, que representa cerca de 30% dos brasileiros e tem peso decisivo em eleições majoritárias. Ao sugerir o voto em Michelle Bolsonaro, o presidente da IPB sinaliza que, mesmo sem apoio institucional formal, a liderança máxima da denominação endossa uma candidatura específica. Especialistas apontam que isso pode influenciar pastores locais a fazerem o mesmo em seus púlpitos, ampliando a capilaridade da campanha conservadora.
Do ponto de vista econômico, a associação entre fé cristã e políticas de livre mercado — bandeira histórica do bolsonarismo — tende a reforçar a percepção de que Michelle seria uma candidata favorável à desregulamentação, à reforma tributária e à abertura comercial. Lideranças empresariais evangélicas, como o empresário **José Roberto de Souza**, da Associação de Empresários Cristãos, já manifestaram apoio à ideia de que a candidatura de Michelle poderia garantir “estabilidade moral e econômica”. Em contrapartida, setores progressistas veem com preocupação a instrumentalização religiosa do voto e questionam a separação entre Estado e igreja.
**Fontes**
A reportagem baseou-se no vídeo da palestra disponível no canal oficial da Associação de Lideranças Evangélicas (ALE), em matéria do jornal **O Estado de S. Paulo** publicada em 29 de setembro de 2026 e em análise do cientista político **Carlos Melo**, do Insper, publicada no blog **Poder360** em 30 de setembro de 2026. O estatuto da IPB foi consultado no site oficial da denominação.
Por Renan Filho · 2026-10-01