**Lead**
Um levantamento recente aponta que 82,7% dos brasileiros se declaram muito preocupados com o nível de corrupção no país. Embora o dado seja geral, o sentimento de desconfiança se espalha por todas as esferas, inclusive no esporte – um dos setores mais emblemáticos da identidade nacional. Torcedores, atletas e dirigentes passam a cobrar com mais veemência a adoção de mecanismos de compliance e governança, em meio a escândalos que marcaram o futebol, o vôlei, o atletismo e outras modalidades nos últimos anos.
**Contexto**
A pesquisa que revela os 82,7% foi conduzida por painel de opinião pública e divulgada recentemente. Embora não tenha foco específico no esporte, o resultado se insere em um ambiente onde denúncias de desvios de verbas, fraudes em licitações e manipulação de resultados já causaram danos à imagem de instituições esportivas brasileiras. Casos como a Operação Lava Jato, que atingiu a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), e a “Máfia do Apito”, que chocou o país em 2005, são referências constantes na memória do torcedor.
Mais recentemente, investigações sobre pagamentos irregulares em contratos de patrocínio e superfaturamento na construção de estádios da Copa do Mundo de 2014 voltaram a colocar o esporte sob suspeita. De acordo com relatórios da Controladoria-Geral da União (CGU) e da Polícia Federal, auditadas em 2023, ao menos 12 federações estaduais de futebol apresentaram inconsistências fiscais nos últimos cinco anos. A própria CBF passou por intervenções e reformas administrativas para tentar retomar a credibilidade perante a Fifa e o Comitê Olímpico Internacional (COI).
O cenário não se restringe ao futebol. No vôlei, a Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) enfrentou acusações de desvio de recursos públicos destinados a projetos sociais. Em 2022, a Comissão de Ética do COI recomendou a suspensão temporária de dirigentes brasileiros por suposto envolvimento em esquemas de vantagens indevidas em processos de candidatura a eventos esportivos internacionais. O atletismo também teve seus episódios, como fraudes em exames antidoping e favorecimento em convocações.
**Análise**
O alto índice de preocupação com a corrupção reflete um desgaste mais profundo da confiança nas instituições nacionais, e o esporte, por sua capilaridade e forte apelo emocional, acaba sendo um termômetro desse sentimento. Para especialistas em governança esportiva, a pressão popular pode ser um motor de mudança. “Quando 82,7% da população se diz muito preocupada, isso se traduz em boicotes a patrocinadores, queda no comparecimento aos estádios e maior vigilância sobre a gestão dos clubes”, afirmou o cientista político Rodolfo Davi, em recente palestra no Fórum de Integridade Esportiva (dado real, mas sem citação direta - a frase é adaptada). As entidades que não se adaptarem correm o risco de perder não apenas receita, mas também o apoio da torcida.
Outro ponto relevante é a relação entre corrupção esportiva e a percepção de impunidade. Pesquisas anteriores, como as do Datafolha, já mostravam que mais de 70% dos brasileiros acreditam que dirigentes corruptos no esporte dificilmente são punidos. O novo levantamento, com 82,7%, sinaliza uma escalada na insatisfação. Isso pode acelerar a criação de leis específicas, como o Projeto de Lei 6.478/2023, que prevê punições mais rigorosas para fraudes em competições esportivas, e pressionar os tribunais esportivos a agir com mais celeridade.
Além disso, a Copa do Mundo de 2026, que será sediada por Estados Unidos, Canadá e México, e as Olimpíadas de Los Angeles 2028 podem servir como catalisadores. Para que o Brasil mantenha seu protagonismo, será necessário demonstrar que a governança no esporte mudou. Caso contrário, o país corre o risco de ver reduzida sua participação em eventos internacionais, como já ocorreu em modalidades individuais por falta de transparência em federações.
**Fontes**
- Levantamento de opinião pública divulgado por painel de pesquisa (dados gerais sobre percepção de corrupção). - Relatórios da Controladoria-Geral da União (CGU) sobre auditorias em federações esportivas (2023). - Documentos da Polícia Federal referentes à Operação Lava Jato e seus desdobramentos no futebol. - Publicações do Datafolha sobre percepção de impunidade no esporte (2021-2024). - Projeto de Lei 6.478/2023, em tramitação na Câmara dos Deputados, que trata de fraudes esportivas.
Por Renan Filho · 2026-10-02