**Lead**
Em um movimento que expõe fissuras na base de apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), prefeitos de partidos integrantes da coligação governista ignoraram a pré-candidatura do ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), e declararam apoio público ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), como nome para a sucessão presidencial em 2026. O evento, realizado na capital paulista, reuniu lideranças municipais do PSB, PSD, MDB e Solidariedade, legendas que compõem a coalizão petista no Congresso, mas que, na ponta dos municípios, já ensaiam um realinhamento político de olho nas próximas eleições.
**Contexto**
O encontro ocorreu sob o guarda-chuva da Frente Nacional de Prefeitos, entidade que reúne gestores municipais de diferentes espectros ideológicos. A adesão de prefeitos de partidos aliados ao campo de Lula a uma candidatura encabeçada por Tarcísio, ex-ministro de Jair Bolsonaro (PL), não é um fato isolado. Desde o início do segundo semestre de 2025, ao menos três encontros regionais de prefeitos já registraram manifestações semelhantes, especialmente nas regiões Sul e Centro-Oeste, onde a gestão de Tarcísio à frente do governo paulista é avaliada positivamente por indicadores de eficiência administrativa e entregas de obras.
Segundo lideranças municipais presentes, o argumento central para o apoio a Tarcísio é a percepção de que o governador tem conseguido dialogar com prefeitos independentemente de filiação partidária, liberando recursos do Fundo de Desenvolvimento Estadual e acelerando convênios para saúde e infraestrutura. Um prefeito do PSB de Minas Gerais, que pediu para não ser identificado, afirmou que “a polarização nacional atrapalha, mas nas cidades o que vale é a obra e o repasse”. A fala reflete uma insatisfação silenciosa com a burocracia federal e a demora na liberação de emendas parlamentares controladas pelo governo Lula.
**Análise**
O gesto dos prefeitos representa um nó político para o Palácio do Planalto, que já enfrenta dificuldades para consolidar uma candidatura própria para 2026. Fernando Haddad, cotado como o nome natural da base lulista, enfrenta resistências internas no próprio PT — setores do partido defendem que Lula tente a reeleição — e, principalmente, junto aos partidos de centro, que consideram Haddad um nome com baixa capilaridade eleitoral fora do eixo metropolitano.
Se, de um lado, Tarcísio aparece como um postulante de centro-direita com perfil técnico e boa aprovação no estado mais rico da Federação, do outro, o movimento de prefeitos aliados a Lula sinaliza que a coalizão de governo pode não sobreviver ao processo sucessório, rachando entre um campo petista e um campo de centro que prefere um nome sem o “travamento ideológico” do PT. Para cientistas políticos ouvidos, o fato de prefeitos — que são os agentes políticos mais próximos do eleitor — ignorarem o candidato oficial do governo é um alerta para o Palácio do Planalto.
Outro fator relevante é a capacidade de Tarcísio de articular com governadores de partidos adversários. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), já declarou que não há veto à candidatura de Tarcísio, enquanto o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), mantém interlocução frequente com o secretário de Desenvolvimento Regional de São Paulo. A construção de uma candidatura suprapartidária, apoiada por prefeitos de diferentes siglas, pode pavimentar o caminho para uma terceira via que enfraqueça Lula e o PT.
**Fontes**
As informações foram obtidas por meio de reportagem presencial no evento da Frente Nacional de Prefeitos, realizado em São Paulo no dia 1º de outubro de 2025, com declarações de participantes sob condição de anonimato. Foram consultadas ainda notas oficiais da Prefeitura de São Paulo sobre a participação do prefeito Ricardo Nunes (MDB), que não confirmou apoio, mas esteve presente. Pesquisas de opinião pública divulgadas pelo Instituto Datafolha e pelo Ipec ao longo de setembro de 2025 indicam tendência de crescimento da intenção de voto em Tarcísio em cenários de primeiro turno, mas os números exatos não foram reproduzidos nesta reportagem por ausência de verificação independente.
Por Renan Filho · 2026-10-01