**Lead**
Com o fim do período eleitoral, o Brasil se depara com um desafio que transcende partidos e governos: a construção de um projeto de país de longo prazo. No campo dos esportes, a ausência de uma política de Estado consistente — que vá além de ciclos olímpicos ou de grandes eventos — expõe a fragilidade de um setor com enorme potencial para gerar inclusão social, saúde pública e desenvolvimento econômico. Enquanto nações como Estados Unidos, China e Austrália tratam o esporte como pilar estratégico, o Brasil ainda patina entre iniciativas descontinuadas e falta de articulação entre governos federal, estaduais e municipais.
**Contexto**
Nos últimos anos, o Brasil sediou megaeventos como a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos Rio 2016. O legado, no entanto, ficou aquém do esperado. Estádios e arenas construídos com recursos públicos enfrentam subutilização, enquanto programas de base como o Segundo Tempo e o Bolsa Atleta sofreram cortes orçamentários e mudanças de prioridade a cada troca de governo. Dados do Ministério da Cidadania indicam que o investimento federal em esporte caiu de forma expressiva entre 2015 e 2023, com recuperação parcial apenas nos últimos dois anos, mas ainda distante do patamar necessário.
A falta de continuidade é um dos principais gargalos. Cada gestão federal tende a criar novos programas com nomes e formatos diferentes, desprezando o que foi construído anteriormente. Isso gera desperdício de recursos e descontinuidade de projetos que levam anos para dar resultados, especialmente na formação de atletas de alto rendimento e na promoção da atividade física nas escolas.
No âmbito escolar, a educação física ainda é tratada como disciplina secundária, com infraestrutura precária e carga horária reduzida. A Lei Pelé e a Lei de Incentivo ao Esporte existem, mas sua aplicação é limitada por burocracia e falta de fiscalização. O resultado é que o Brasil, apesar de ser um celeiro natural de talentos — como no futebol, vôlei, judô e atletismo —, perde atletas promissores por falta de apoio e estrutura.
**Análise**
A construção de um projeto de país para o esporte passa por três eixos fundamentais. O primeiro é a integração entre esporte e educação. Países como a Coreia do Sul e o Japão demonstraram que a prática esportiva regular nas escolas melhora o desempenho acadêmico, reduz a evasão e forma cidadãos mais saudáveis. No Brasil, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) prevê a educação física como componente obrigatório, mas a implementação é desigual e muitas vezes limitada a duas aulas por semana.
O segundo eixo é o investimento contínuo em ciência do esporte e formação de profissionais. Enquanto centros de treinamento de ponta no exterior contam com equipes multidisciplinares — médicos, fisiologistas, nutricionistas, psicólogos —, a maioria dos atletas brasileiros treina em condições precárias, sem acompanhamento adequado. A criação de centros de excelência regionais, com parcerias entre universidades e federações, poderia mudar esse cenário.
O terceiro eixo é a gestão profissionalizada e transparente dos recursos. O esporte brasileiro sofre com a falta de planejamento estratégico e com a influência política na distribuição de verbas. A adoção de metas claras, indicadores de desempenho e auditorias independentes poderia aumentar a eficiência e reduzir o desperdício. Além disso, é urgente a aprovação de uma lei de responsabilidade esportiva, que obrigue federações e confederações a prestar contas de forma periódica.
O esporte também pode ser vetor de desenvolvimento econômico. O mercado global de esportes movimenta centenas de bilhões de dólares por ano, com geração de empregos em áreas como turismo, eventos, tecnologia, mídia e vestuário. O Brasil, com sua diversidade cultural e natural, tem potencial para se tornar um polo de turismo esportivo, atraindo competições internacionais e visitantes durante todo o ano.
**Fontes**
As informações deste editorial são baseadas em dados públicos do Ministério do Esporte (extinto e recriado), relatórios do Comitê Olímpico do Brasil (COB), estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre políticas públicas de esporte, e análises de especialistas em gestão esportiva publicadas em veículos como a revista Pesquisa Fapesp e o jornal Folha de S.Paulo. Também foram consultados documentos da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) sobre o papel do esporte no desenvolvimento sustentável.
Por Renan Filho · 2026-10-26