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A poeira das urnas começa a baixar, e o Brasil se vê novamente diante de um dilema que se repete a cada ciclo eleitoral: o que fazer com o mandato conquistado? Mais do que celebrar ou lamentar resultados, o país precisa, com urgência, de um projeto de nação que transcenda os quatro anos de um governo. A eleição é o meio, não o fim. O fim deve ser a construção de um Brasil mais estável, próspero e justo para as próximas gerações. Este editorial defende que, sem um pacto mínimo sobre rumos estratégicos, o país continuará patinando entre crises e promessas não cumpridas.
**Contexto**
Historicamente, o Brasil alterna governos com agendas opostas, mas raramente consegue manter políticas de Estado que atravessem diferentes administrações. Exemplos não faltam: a reforma da previdência, debatida por décadas, foi aprovada em um governo e imediatamente colocada em xeque no seguinte. A política externa mudou radicalmente de direção a cada posse. O marco do saneamento básico, aprovado com amplo apoio, enfrenta resistências e revisões constantes. Essa falta de continuidade gera um custo altíssimo para o país: investidores não sabem quais regras valerão amanhã, empresas não planejam no longo prazo e o cidadão perde a confiança nas instituições.
Dados do Banco Mundial e do FMI, amplamente divulgados, mostram que economias emergentes de sucesso, como o Chile e a Coreia do Sul, conseguiram implementar reformas estruturais justamente por manterem um núcleo duro de políticas independentemente de quem estava no poder. No Brasil, a cada troca de governo, equipes inteiras são substituídas, programas são descontinuados e o conhecimento acumulado se perde. O resultado é um crescimento econômico medíocre, uma dívida pública que não se estabiliza e uma sensação generalizada de que o país não sai do lugar.
O ambiente político polarizado agrava esse quadro. As eleições de 2026, marcadas por forte tensão, mostraram que a sociedade está dividida em campos que se enxergam como inimigos, não como adversários. Nesse cenário, qualquer proposta de longo prazo é imediatamente associada ao grupo político que a defende, e não ao interesse nacional. A reforma tributária, aprovada após décadas de debate, é um raro exemplo de consenso possível, mas sua implementação ainda enfrenta obstáculos e resistências setoriais.
**Análise**
A ausência de um projeto de país não é apenas um problema político, mas uma ameaça concreta ao desenvolvimento. Sem ele, o Brasil continuará refém do curto prazo: o governo gastará para manter popularidade, o Congresso negociará emendas para aprovar pautas, e a sociedade assistirá passiva a mais um ciclo de esperança e frustração. O custo dessa instabilidade é mensurável: juros altos, câmbio volátil, fuga de capitais e baixo investimento em infraestrutura e inovação.
O que seria um projeto de país? Não se trata de um plano de governo detalhado, mas de um conjunto de compromissos fundamentais que nenhum presidente, governador ou prefeito deveria ousar romper. Entre eles: responsabilidade fiscal como valor permanente, não como ajuste temporário; educação básica de qualidade como prioridade absoluta, independentemente de partido; segurança jurídica para contratos e investimentos; e uma política ambiental que concilie desenvolvimento com preservação, aproveitando as vantagens comparativas do Brasil na economia verde.
Esses pilares não são de direita nem de esquerda. São condições mínimas para que o país possa crescer de forma sustentável e reduzir suas desigualdades históricas. O problema é que, no calor do debate político, qualquer defesa de ajuste fiscal é tratada como “austericídio”, e qualquer proposta de ampliação de direitos é vista como “irresponsabilidade”. O país precisa superar essa dicotomia e construir um terreno comum.
**Fontes**
Este editorial baseia-se em análises de instituições como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Banco Central do Brasil, além de artigos acadêmicos sobre governança e desenvolvimento comparado. As observações sobre ciclos políticos e descontinuidade administrativa são corroboradas por estudos do Tribunal de Contas da União (TCU) e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Por Renan Filho · 2026-10-27