**Lead**
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições presidenciais de 2022 representou não apenas a volta de um ex-presidente ao poder, mas uma complexa equação política que combinou o desgaste do governo Jair Bolsonaro, a formação de uma coalizão inédita e a mobilização de eleitores cansados da polarização. A pergunta que ecoou nos dias seguintes ao pleito – por que Lula venceu? – tem respostas que vão além dos números das urnas. Elas envolvem uma leitura atenta do cenário social, econômico e institucional do Brasil.
**Contexto**
O pleito de 2022 foi um dos mais acirrados desde a redemocratização. Lula, que havia deixado a Presidência em 2010 com altos índices de aprovação, passou anos enfrentando processos judiciais e ficou preso entre 2018 e 2019. Sua elegibilidade foi restabelecida pelo Supremo Tribunal Federal em 2021, e a partir daí ele construiu uma candidatura com o objetivo de atrair o centro político. A escolha de Geraldo Alckmin, ex-tucano e ex-governador de São Paulo, como vice foi o símbolo mais eloquente dessa estratégia: unir progressistas e parte da centro-direita contra o bolsonarismo.
Bolsonaro chegou à disputa com uma base fiel, mas desgastado por fatores como a condução da pandemia de covid-19, que resultou em mais de 680 mil mortes, e por crises recorrentes com o Judiciário. A economia, embora apresentasse sinais de recuperação pontuais, ainda sofria com inflação elevada, desemprego e perda do poder de compra das classes mais pobres. O auxílio emergencial, ampliado em ano eleitoral, gerou alívio temporário, mas não foi suficiente para reverter a percepção de descaso com a gestão da saúde e do desenvolvimento social.
A campanha de Lula apostou no discurso de reconstrução do país, com promessas de retomada de programas sociais como o Bolsa Família, fortalecimento do SUS e investimentos em educação. Ao mesmo tempo, buscou descolar sua imagem do escândalo do petrolão e apresentar a candidatura como uma frente democrática ampla. Partidos como PSB, PSOL e Rede, além de movimentos sociais, aderiram à chapa. A aliança com Alckmin deu a Lula o aval de parte do empresariado e do eleitorado moderado.
**Análise**
A vitória de Lula não pode ser compreendida apenas como um fenômeno carismático. Ela reflete um realinhamento profundo do eleitorado. As pesquisas de opinião ao longo de 2022 indicavam uma disputa polarizada, mas com Lula mantendo vantagem entre os segmentos de menor renda e escolaridade, enquanto Bolsonaro consolidava apoio entre evangélicos e regiões como o Sul e o Centro-Oeste. A diferença final na votação foi estreita, mas suficiente para devolver o PT ao comando do Executivo.
Analistas políticos apontam que a estratégia de Lula de não se posicionar de forma radical nos temas de costumes, como o aborto e a legalização de drogas, permitiu que ele angariasse votos de eleitores mais conservadores que rejeitavam Bolsonaro. Além disso, a lembrança dos governos Lula (2003-2010) como um período de crescimento econômico e redução da pobreza foi constantemente evocada na propaganda eleitoral. Para muitos brasileiros, a volta do ex-presidente representava a esperança de dias melhores após um governo marcado por confrontos institucionais.
Por outro lado, o bolsonarismo não desapareceu. O ex-presidente obteve uma votação expressiva, o que sinaliza a permanência de uma parcela da população alinhada a seu discurso. Lula venceu, mas assumiu em um contexto de fragmentação política, com um Congresso conservador e uma sociedade dividida. A capacidade de governar dependerá de sua habilidade em negociar pautas econômicas e sociais em meio a uma oposição fortalecida.
**Fontes**
As informações deste artigo baseiam-se em dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e em análises publicadas por veículos como G1, Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e UOL, além de estudos de institutos de pesquisa como Datafolha e Ipec. Reportagens da Agência Brasil e artigos acadêmicos sobre comportamento eleitoral também foram consultados para contextualizar a disputa. Nenhum dado numérico específico foi replicado aqui sem verificação de fonte aberta.
Por Renan Filho · 2026-10-27