**Lead**
A discussão sobre gênero no setor de tecnologia ganhou novo capítulo no Brasil com a divulgação de levantamentos recentes que mostram a persistente sub-representação feminina em cargos de liderança e em áreas de desenvolvimento técnico. Embora as empresas do setor tenham ampliado programas de diversidade e inclusão, os números ainda revelam um descompasso entre o discurso e a prática. A pergunta que move o debate é direta: o poder, no universo tecnológico, tem gênero?
**Contexto**
O setor de tecnologia é um dos que mais cresce no país, com demanda constante por profissionais qualificados. Apesar disso, a participação feminina em posições estratégicas permanece baixa. Estudos de institutos de pesquisa e associações do setor indicam que as mulheres representam cerca de um terço da mão de obra total em tecnologia, mas a proporção cai drasticamente quando se observam cargos de alta liderança, como diretorias e conselhos de administração.
Historicamente, a área de exatas e computação foi construída como um ambiente majoritariamente masculino. Desde a formação educacional, meninas enfrentam estigmas que as afastam das carreiras de programação, engenharia e ciência de dados. Esse fenômeno, observado em diversas partes do mundo, também se manifesta no Brasil, onde a presença feminina em cursos de ciência da computação não cresceu na mesma velocidade que a expansão do mercado de trabalho digital.
Dados de organizações como o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e a consultoria de recursos humanos McKinsey & Company, em estudos globais, apontam que empresas com maior diversidade de gênero em posições de comando tendem a tomar decisões mais inovadoras e apresentar melhor desempenho financeiro. No entanto, essa evidência não tem sido suficiente para acelerar a mudança estrutural no setor.
**Análise**
A baixa representatividade feminina na tecnologia não pode ser explicada apenas por diferenças de interesse ou escolha individual. Pesquisadores que estudam a participação de mulheres no mercado de trabalho apontam que fatores culturais, como a cobrança social por papéis tradicionais e a falta de referências femininas em posições de destaque, são determinantes para a perpetuação do cenário. Meninas que não veem mulheres em posições de liderança tecnológica tendem a não se enxergar nesses espaços.
Além disso, o ambiente corporativo frequentemente apresenta obstáculos adicionais, como vieses inconscientes em processos de contratação e avaliação, além de uma cultura de trabalho que exige dedicação exclusiva em horários e formatos que atingem desproporcionalmente as mulheres, que ainda acumulam a maior parte das responsabilidades domésticas e de cuidado.
O impacto dessa desigualdade vai além da justiça social. A ausência de mulheres no desenvolvimento e na liderança de produtos tecnológicos gera soluções que não consideram as necessidades de mais da metade da população. Ferramentas de inteligência artificial, por exemplo, já demonstraram vieses de gênero porque foram treinadas majoritariamente com dados produzidos por equipes homogêneas.
A boa notícia é que o tema deixou de ser invisível. Iniciativas como a presença crescente de mulheres em comunidades de programação, o aumento de coletivos feministas de tecnologia e a pressão pública por transparência nos dados de diversidade têm forçado as empresas a olharem para o problema de forma mais cuidadosa. No entanto, transformações estruturais exigem mudanças na educação básica, na cultura organizacional e nas políticas públicas de apoio à maternidade e ao cuidado.
**Fontes**
A reportagem se baseia em dados e análises de institutos e organizações como o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a consultoria McKinsey & Company e estudos acadêmicos sobre participação feminina no mercado de trabalho em tecnologia. As informações sobre viés de gênero em inteligência artificial têm como referência pesquisas publicadas por organizações como o AlgorithmWatch e relatórios da UNESCO sobre igualdade de gênero na ciência e tecnologia. As conclusões apresentadas refletem o consenso atual entre especialistas da área, sem atribuição de declarações individuais.
Por Renan Filho · 2026-10-17