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Tecnologia

Adotar nacionalismo de Trump seria ruim para o mundo, diz Piketty à BBC

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-29

Economista francês critica aproximação ideológica do Brasil ao nacionalismo trumpista e alerta para impactos globais em tecnologia e cooperação climática

**Lead**

O economista francês Thomas Piketty afirmou, em entrevista à BBC Brasil, que o Brasil seguir o nacionalismo tecnológico e econômico inspirado no ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump seria prejudicial para o mundo. A declaração foi dada em meio ao debate global sobre soberania digital, regulação de plataformas e disputa por semicondutores e inteligência artificial. Para Piketty, um país com a relevância ambiental e diplomática do Brasil deveria atuar como ponte multilateral, não como eco de políticas unilaterais.

**Contexto**

A entrevista ocorre em um momento em que governos ao redor do mundo pressionam por maior autonomia tecnológica, tanto no setor de chips quanto em infraestrutura de dados. O termo nacionalismo tecnológico ganhou força com a administração Trump, que impôs barreiras a empresas estrangeiras e estimulou a produção local de semicondutores e equipamentos de telecomunicação. A abordagem também influenciou discussões na América Latina, inclusive no Brasil, onde parte do debate público associa desenvolvimento nacional a restrições a empresas globais de tecnologia.

Piketty, conhecido por suas pesquisas sobre desigualdade econômica e concentração de renda, argumenta que barreiras rígidas tendem a fragmentar o acesso a conhecimento científico e a reduzir a colaboração entre países. Ele cita, como exemplo, as restrições na exportação de semicondutores avançados, que já afetam cadeias globais de produção. Para o economista, países emergentes como o Brasil precisam investir em capacitação local sem, porém, abandonar acordos internacionais de ciência e tecnologia. A saída estaria em uma combinação de investimento público, regulação clara e parcerias diversificadas.

No Brasil, o arcabouço legal de proteção de dados e a regulação de plataformas digitais estão em plena discussão no Congresso. Recentemente, houve disputas sobre a responsabilização de redes sociais e sobre políticas de moderação de conteúdo. Esses pontos se aproximam de debates travados nos Estados Unidos e na Europa, mas ganham contornos próprios na América Latina devido à concentração de acesso digital via celulares e à forte presença de empresas estrangeiras no mercado local.

**Análise**

A fala de Piketty coloca o Brasil diante de uma encruzilhada. De um lado, há um desejo legítimo de fortalecer a indústria nacional em setores estratégicos, como inteligência artificial, computação em nuvem e produção de equipamentos. De outro, uma postura de isolamento pode reduzir o fluxo de investimentos estrangeiros e a participação brasileira em redes globais de pesquisa. Estudos sobre inovação indicam que países que mais avançam em tecnologia combinam políticas domésticas ativas com integração internacional. O caso da China mostra que é possível ter um Estado forte no setor tecnológico, mas mesmo o país asiático mantém amplos laços comerciais e científicos com outras nações.

A preocupação do economista também alcança a área ambiental. O Brasil detém a maior floresta tropical do mundo, e Piketty observa que a preservação da Amazônia não pode ser separada da agenda de desenvolvimento tecnológico. Sem cooperação para monitoramento por satélite, rastreamento de desmatamento e agricultura de baixo carbono, o país perde eficiência. O ambientalismo passa, necessariamente, por modernização digital.

Especialistas em relações internacionais apontam que o nacionalismo exacerbado, como o adotado por Trump em alguns momentos, tende a gerar sanções recíprocas e instabilidade regulatória. Para um país com a escala do Brasil, o melhor caminho seria defender regras multilaterais para comércio digital, transferência de tecnologia e tributação de grandes empresas. O próprio Piketty defende uma tributação global coordenada para evitar que companhias multinacionais lucrem sem contribuir adequadamente nos países onde operam.

O debate não é apenas econômico, mas também civilizatório. A internet molda o acesso à informação, a comunicação política e a organização social. Decisões sobre quem controla a infraestrutura digital terão efeito duradouro sobre a democracia nos próximos anos. Piketty sugere que o Brasil pode exercer um papel de liderança no chamado Sul Global, propondo alternativas que não sejam simplesmente a imitação de políticas de Washington ou de Pequim.

A declaração é endereçada ao governo e à sociedade brasileira como um todo. Embora reconheça a importância de uma indústria forte, o economista alerta que o crescimento sustentável exige abertura controlada. A ideia central é de que a tecnologia, quando isolada, torna-se instrumento de dominação e desigualdade; quando compartilhada, torna-se base para um desenvolvimento mais justo. Em um momento de transição para energias limpas e digitalização acelerada, alinhar-se a um nacionalismo de curto prazo pode parecer atrativo, mas arriscado no longo prazo.

**Fontes**

As informações são da entrevista do economista Thomas Piketty à BBC Brasil, publicada no período em que o governo brasileiro intensifica discussões sobre regulação de plataformas e política industrial. A análise contextual utiliza dados factuais de debates públicos sobre semicondutores, inteligência artificial e cooperação climática. Não há outras fontes primárias envolvidas na apuração desta notícia.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.