**Lead**
O economista francês Thomas Piketty, autor do best-seller "O Capital no Século XXI", declarou em entrevista à BBC Brasil que um eventual alinhamento do Brasil ao nacionalismo econômico e político defendido pelo ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump seria "ruim para o mundo". A afirmação foi feita durante a turnê de lançamento de seu mais recente livro, no qual analisa os riscos do populismo de direita e da fragmentação da ordem internacional. Piketty destacou que o Brasil, como uma das maiores economias emergentes e potência ambiental, tem um papel estratégico que não pode ser reduzido a cópias de modelos estrangeiros.
**Contexto**
Thomas Piketty é um dos economistas mais influentes da atualidade, conhecido por suas pesquisas sobre desigualdade de renda e concentração de riqueza. Em sua entrevista à BBC Brasil, ele abordou o cenário político brasileiro à luz das eleições presidenciais de 2026, nas quais candidatos de diferentes espectros têm flertado com propostas de soberania nacional agressiva e protecionismo comercial, inspiradas na retórica trumpista. Piketty lembrou que o nacionalismo econômico de Trump, baseado em tarifas unilaterais, desprezo por acordos multilaterais e discurso anti-imigração, gerou instabilidade nos mercados globais e enfraqueceu instituições como a Organização Mundial do Comércio (OMC).
O Brasil, por sua vez, vive um momento de definição de sua política externa. O país é membro do BRICS, do Mercosul e da Cúpula das Américas, além de sediar a COP30 em 2025, o que lhe confere protagonismo nas discussões sobre clima e desenvolvimento sustentável. Piketty argumentou que adotar uma postura nacionalista nos moldes de Trump significaria abandonar esse capital diplomático e isolar o Brasil em um momento em que o mundo precisa de cooperação para enfrentar desafios como a transição energética, a regulação de big techs e o combate à desigualdade global.
**Análise**
A advertência de Piketty ganha relevância em um contexto de ascensão de lideranças populistas na América Latina e no mundo. O economista ressaltou que o nacionalismo trumpista não é uma solução para os problemas estruturais do Brasil, como a baixa produtividade, a infraestrutura deficiente e a desigualdade histórica. Pelo contrário, ele tenderia a aprofundar a dependência de commodities e a fragilizar parcerias comerciais diversificadas. "O Brasil tem condições de construir um modelo próprio de desenvolvimento, baseado em inclusão social e sustentabilidade, sem precisar copiar receitas que fracassaram em outros lugares", afirmou Piketty na entrevista.
Do ponto de vista geopolítico, um Brasil alinhado ao nacionalismo trumpista poderia enfraquecer o multilateralismo justamente quando ele mais é necessário. A guerra na Ucrânia, as tensões no Indo-Pacífico e a crise climática exigem coordenação entre potências e emergentes. Piketty destacou que o Brasil, sob uma liderança nacionalista, correria o risco de se tornar um "player isolado", perdendo influência em fóruns como a ONU e o G20. Além disso, a adoção de políticas protecionistas poderia gerar retaliações de parceiros comerciais como China e União Europeia, prejudicando setores como o agronegócio e a indústria automobilística.
**Fontes**
A informação foi obtida a partir da entrevista concedida por Thomas Piketty à BBC Brasil, veiculada em setembro de 2026. A reportagem original pode ser consultada no site da BBC News Brasil. Não foram utilizadas fontes anônimas ou dados não verificáveis. O economista Thomas Piketty é professor da Escola de Economia de Paris e autor de obras amplamente referenciadas no debate público global.
Por Renan Filho · 2026-09-29