**Lead**
Em um movimento que combina nostalgia política com estratégias digitais de última geração, um grupo de ex-parlamentares e militantes históricos do Partido dos Trabalhadores — conhecidos como 'petistas raiz' — está de volta ao jogo eleitoral. Após anos de cassações, prisões e inelegibilidades decorrentes da Operação Lava Jato e de processos no Tribunal Superior Eleitoral, esses nomes buscam uma vaga na Câmara dos Deputados nas eleições de outubro de 2026. Diferente de campanhas passadas, a nova ofensiva é marcada pelo uso intensivo de tecnologia: aplicativos de mobilização, inteligência artificial para segmentação de eleitores e plataformas de financiamento coletivo descentralizado.
**Contexto**
O fenômeno não é isolado. Desde que o Supremo Tribunal Federal anulou diversas condenações da Lava Jato por suspeitas de parcialidade do ex-juiz Sergio Moro, entre 2021 e 2023, dezenas de políticos ligados ao PT tiveram seus direitos políticos restaurados. Entre eles, figuras que ocuparam mandatos na Câmara entre 2003 e 2016 e que foram alvo de denúncias por suposto envolvimento no esquema de corrupção da Petrobras. Muitos passaram anos presos ou com tornozeleiras eletrônicas, mas agora, com a elegibilidade recuperada, ensaiam um retorno.
A novidade está na forma como essas candidaturas estão sendo organizadas. Em vez de depender exclusivamente do diretório nacional do partido ou de grandes doações empresariais — hoje restritas pela legislação eleitoral —, os 'petistas raiz' estão construindo máquinas de campanha baseadas em tecnologia. Grupos de WhatsApp e Telegram, antes usados para articulação política informal, foram transformados em verdadeiros comitês digitais. Aplicativos próprios, desenvolvidos por startups aliadas ao campo progressista, permitem que simpatizantes façam doações via Pix, organizem carreatas virtuais e compartilhem conteúdo de propaganda em tempo real.
Dados do Tribunal Superior Eleitoral indicam que, até agosto de 2026, mais de 40 candidatos com histórico de condenação ou cassação pelo PT registraram pré-candidaturas a deputado federal. Embora números exatos sejam difíceis de confirmar sem acesso a todas as atas partidárias, a tendência é clara: o partido aposta na base fiel, que nunca abandonou esses nomes, para tentar ampliar sua bancada na Câmara, atualmente com 68 cadeiras.
**Análise**
A volta dos 'petistas raiz' ao cenário eleitoral não é apenas um capítulo da história política brasileira, mas um teste de fogo para as novas ferramentas de campanha digital. Em um ambiente onde a desinformação e os algoritmos das redes sociais moldam a opinião pública, a capacidade de mobilizar uma base engajada por meio de tecnologia pode ser o diferencial entre uma candidatura viável e uma mera lembrança do passado.
Especialistas em marketing político apontam que o uso de inteligência artificial para personalizar mensagens — identificando eleitores indecisos em bairros específicos e enviando conteúdos sob medida — está sendo adotado por essas campanhas de forma pioneira. Diferente das grandes estruturas partidárias, que ainda operam com métodos tradicionais de corpo a corpo, os 'petistas raiz' estão testando modelos mais enxutos e descentralizados. Isso pode representar uma disrupção no financiamento de campanhas, já que o crowdfunding político, embora ainda incipiente no Brasil, ganha força com a popularização do Pix e das carteiras digitais.
Por outro lado, o retorno desses nomes também reacende debates sobre a memória recente da política brasileira. Para analistas, a estratégia do PT de reabilitar figuras ligadas a escândalos de corrupção pode ser um risco eleitoral, especialmente entre o eleitorado mais jovem, que não viveu os governos Lula e Dilma e que se informa principalmente por redes sociais. A tecnologia, nesse caso, é uma faca de dois gumes: ao mesmo tempo que permite alcançar a base fiel, também expõe os candidatos a ataques e revisões de seu passado em plataformas como TikTok e Instagram.
**Fontes**
As informações deste artigo foram baseadas em reportagens do portal UOL, do jornal Folha de S.Paulo, do site Congresso em Foco e em dados públicos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). As análises sobre tecnologia eleitoral foram fundamentadas em artigos acadêmicos do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) e em entrevistas de especialistas em marketing político publicadas pela revista Piauí e pelo portal Nexo Jornal.
Por Renan Filho · 2026-10-01