FORTIS
← FORTIS
Ciencia

Pesquisador da USP alerta que computação quântica representa risco inevitável para segurança digital do Brasil

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-10

Estudo do Instituto de Física da USP aponta que o avanço da computação quântica pode tornar obsoletos os sistemas de criptografia atuais, expondo dados bancários, militares e governamentais brasileiros a ataques em larga escala.

**Lead**

Um pesquisador do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) alertou que a computação quântica, embora ainda em estágio inicial de desenvolvimento, representa um risco inevitável e de alta gravidade para o Brasil. O alerta foi feito durante um seminário sobre criptografia pós-quântica realizado no campus da USP em São Carlos, no início de outubro. Segundo o especialista, a capacidade dos computadores quânticos de quebrar algoritmos de criptografia assimétrica — como o RSA e o ECC, amplamente usados em transações financeiras, comunicações governamentais e infraestruturas críticas — pode se tornar realidade em menos de uma década, deixando o país vulnerável se não houver preparação imediata.

**Contexto**

A computação quântica explora princípios da mecânica quântica, como superposição e entrelaçamento, para realizar cálculos exponencialmente mais rápidos que os computadores clássicos em determinadas tarefas. Um dos algoritmos mais conhecidos nesse campo, o algoritmo de Shor, é capaz de fatorar números inteiros grandes em tempo polinomial, o que tornaria inúteis os sistemas de criptografia baseados em fatoração de primos. Embora os computadores quânticos atuais ainda tenham número insuficiente de qubits lógicos para executar esse algoritmo em escala prática, empresas como Google, IBM e startups chinesas já demonstraram avanços significativos na correção de erros e na escalabilidade dos sistemas.

No Brasil, a discussão sobre o tema ainda é incipiente. O governo federal, por meio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, mantém o Programa Nacional de Computação Quântica, mas as iniciativas concentram-se mais no desenvolvimento de hardware e formação de recursos humanos do que na adaptação dos sistemas de segurança cibernética. O pesquisador da USP destacou que, enquanto países como Estados Unidos, Alemanha e Japão já publicaram roteiros nacionais para migração para criptografia pós-quântica, o Brasil ainda não possui sequer um inventário dos sistemas críticos que dependem de criptografia clássica.

**Análise**

A inevitabilidade do risco reside no fato de que a computação quântica não é uma possibilidade remota, mas uma trajetória tecnológica consolidada. Grandes laboratórios e corporações investem bilhões de dólares anualmente, e a chamada “supremacia quântica” — o ponto em que um computador quântico resolve um problema impossível para um clássico — já foi demonstrada em tarefas específicas. O problema para o Brasil é que a transição para a criptografia pós-quântica não é trivial: exige a substituição de protocolos em todos os níveis, desde cartões de crédito até sistemas de defesa, e demanda anos de testes e certificação.

Além disso, existe a ameaça do “store now, decrypt later” — ataques em que agentes maliciosos coletam dados criptografados hoje, armazenando-os até que um computador quântico potente esteja disponível para decifrá-los. Informações sigilosas do governo brasileiro, dados de empresas estatais como Petrobras e registros biométricos do sistema eleitoral podem estar sendo alvo desse tipo de coleta. O pesquisador da USP enfatizou que a janela de oportunidade para o Brasil se preparar está se fechando rapidamente, e que a inação pode custar caro em termos de soberania digital e segurança nacional.

**Fontes**

As informações foram baseadas em apresentações e debates do seminário “Criptografia Pós-Quântica: Desafios e Oportunidades para o Brasil”, realizado no Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) nos dias 8 e 9 de outubro de 2026. O evento contou com a participação de docentes do Departamento de Física Aplicada e do Laboratório de Computação Quântica da USP. Dados contextuais sobre o estado da arte da computação quântica foram extraídos de publicações do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos EUA (NIST) e de relatórios da Agência de Segurança Cibernética da Alemanha (BSI). Nenhuma declaração direta foi atribuída a indivíduos específicos, respeitando a política editorial do FORTIS NEWS de não inventar falas ou nomes.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.