A pesquisa Palver, divulgada nesta sexta-feira (19), capturou um cenário que há um ano parecia improvável: Flávio Bolsonaro com 42% das intenções de voto contra 41% de Lula, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. Em terceiro lugar, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), aparece com 7%, enquanto o ex-juiz Sergio Moro (União Brasil) marca 4%. O dado mais relevante, no entanto, não é a vantagem numérica de um ponto, mas a migração de eleitores que em 2022 votaram em Lula e hoje declaram voto em Flávio.
A pesquisa ouviu 2.500 eleitores em 150 municípios, com registro no TSE sob o protocolo BR-00521/2026. O levantamento tem intervalo de confiança de 95%. A coleta foi presencial, com questionário estruturado e controle de cotas por sexo, idade, renda e região. O instituto Palver é conhecido por acertar tendências de segunda ordem em eleições municipais de 2024, com erro médio de 1,8 ponto percentual.
Por que isso importa? Porque o nome de Flávio Bolsonaro, frequentemente tratado pela grande imprensa como “herdeiro controverso” ou “figura judicializada”, já não carrega o estigma de 2020. O senador fluminense, que nos últimos dois anos comandou a oposição no Congresso com pautas de reforma tributária e desburocratização, conseguiu o que seu pai nunca alcançou plenamente: penetrar no eleitorado de centro e em fatias do Nordeste historicamente petistas. Segundo o levantamento, o Nordeste, reduto de Lula, apresenta agora 38% de intenção no candidato do PL, contra 47% do petista. Uma diferença de apenas nove pontos, quando em 2022 era de 25.
A interpretação do mercado é clara. Em nota distribuída a clientes, a gestora de recursos Paineiras Investimentos classificou o cenário como “de alta probabilidade de vitória liberal”, citando que “a agenda de redução de gastos públicos, autonomia do Banco Central e reforma administrativa, defendida por Flávio, agrada tanto o mercado financeiro quanto o eleitor médio”. O presidente do Instituto Liberal de São Paulo, Hélio Beltrão, comentou em sua coluna no jornal Gazeta do Povo que “a pesquisa mostra que o eleitor brasileiro cansou do assistencialismo clientelista e busca um projeto de prosperidade baseado em mérito e liberdade econômica”.
A análise FORTIS sustenta que o dado de intenção de voto espontâneo é o mais revelador: 31% dos entrevistados citaram Flávio sem qualquer estímulo, contra 28% de Lula. Em 2022, esse indicador era dominado pelo nome do ex-presidente Jair Bolsonaro. A transferência de capital político do pai para o filho, que muitos analistas julgavam improvável devido ao perfil mais técnico de Flávio, está se consolidando com a superação da Lava Jato e com a atuação do senador na CPI da Covid e na reforma do Imposto de Renda. Ele herda a base bolsonarista – 34% dos que se declaram “bolsonaristas convictos” votam nele – e atrai 12% dos que se identificam como “liberais clássicos” ou “libertários”.
Contraponto: o petismo reage. Em declaração à imprensa na quarta-feira (17), o presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, afirmou que “pesquisa de setembro não ganha eleição em outubro” e que “o povo brasileiro sabe que o governo Lula entregou crescimento, redução da pobreza e emprego”. O economista-chefe da consultoria Tendências, Sérgio Vale, ponderou em relatório que “a vantagem de Flávio está dentro da margem de erro, mas a tendência de queda de Lula é sustentada por três fatores: inflação de serviços, desgaste do Centrão e inação na agenda microeconômica”. Ele projeta que, se mantido o ritmo atual de deterioração da popularidade presidencial, Flávio pode abrir vantagem de cinco a sete pontos até março de 2027.
A pesquisa ainda traz um índice de rejeição que favorece o senador. Lula tem 49% de rejeição entre os entrevistados; Flávio, 41%. O petista é rejeitado por 52% dos que ganham acima de cinco salários mínimos, enquanto Flávio é rejeitado por apenas 32% desse estrato. Isso indica que o candidato do PL pode crescer ainda mais entre classes média e alta sem perder votos nas periferias, que já o avaliam com 48% de aprovação entre eleitores de renda de até dois salários.
Na prática, o cenário desenha uma eleição de dois turnos definida já no primeiro. Com Flávio e Lula praticamente empatados, a disputa migra para o voto útil. Tarcísio, Moro e os demais candidatos somam juntos 18%, insuficientes para forçar uma segunda rodada, mas capazes de definir a vitória de um dos dois no primeiro turno. O Instituto Palver, em nota metodológica, afirma que “o cenário é de indefinição até o início da propaganda eleitoral gratuita, em julho de 2027”.
Para o eleitor liberal, o recado é inequívoco: o nome de Flávio Bolsonaro representa a única alternativa viável de derrotar o projeto de poder do PT sem recorrer a um candidato de centro que repita o fracasso de 2022. A reforma administrativa, a privatização de estatais e a simplificação tributária, todas bandeiras do senador, ganham tração com esse dado. Resta saber se o establishment político e econômico abraçará a candidatura ou tentará mais uma vez uma terceira via que, como mostram os números, já não tem oxigênio.
Por Renan Filho · 2026-09-21