**Lead**
Pesquisa Ipsos-Ipec divulgada nesta quarta-feira, 14 de outubro de 2026, aponta que 74% dos brasileiros são contra a prática do aborto, enquanto 71% apoiam a redução da maioridade penal no país. Os números, obtidos a partir de entrevistas com 2.000 pessoas em todas as regiões do Brasil, reforçam a influência de valores conservadores na cultura nacional e acendem o debate sobre a direção das políticas públicas em temas sensíveis.
**Contexto**
O levantamento foi realizado entre os dias 20 de setembro e 4 de outubro de 2026, com margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos e nível de confiança de 95%. A amostra incluiu homens e mulheres maiores de 16 anos, de diferentes faixas etárias, níveis de escolaridade e renda, representando proporcionalmente a população brasileira. Os entrevistados responderam a perguntas sobre temas polêmicos, como aborto, maioridade penal, pena de morte e descriminalização das drogas.
No caso do aborto, a rejeição de 74% é consistente com pesquisas anteriores realizadas pelo mesmo instituto, que já indicavam uma posição majoritariamente contrária à interrupção voluntária da gestação. Atualmente, o aborto é permitido no Brasil apenas em três situações: risco de vida para a gestante, estupro e anencefalia fetal (autorizado pelo Supremo Tribunal Federal em 2012). Projetos de lei que tentam ampliar ou restringir o acesso ao aborto tramitam no Congresso Nacional, mas sem avanços significativos nos últimos anos.
Quanto à maioridade penal, a pesquisa mostra que 71% dos brasileiros defendem a redução da idade mínima para responsabilização criminal, atualmente fixada em 18 anos. O apoio é maior entre homens (75%) do que entre mulheres (67%), e cresce entre pessoas com menor nível de escolaridade. A proposta de redução para 16 anos é a mais citada, embora existam projetos que sugerem 14 ou até 12 anos. O tema volta ao centro do debate sempre que ocorrem crimes violentos envolvendo adolescentes, como os registrados em grandes centros urbanos nos últimos meses.
**Análise**
Os números da Ipsos-Ipec refletem uma cultura brasileira fortemente influenciada por valores religiosos e conservadores, especialmente no que diz respeito à vida e à punição. O alto índice de rejeição ao aborto está alinhado com a posição oficial da Igreja Católica e de grande parte das igrejas evangélicas, que juntas representam cerca de 85% da população religiosa do país. Esse fator cultural tem impacto direto na agenda legislativa: parlamentares ligados a bancadas religiosas frequentemente pautam projetos que endurecem as leis sobre o tema.
Já o apoio à redução da maioridade penal revela uma percepção de insegurança pública e de impunidade em relação a adolescentes infratores. Embora especialistas em direito penal e criminologia apontem que a redução não diminui a violência — e que o Brasil já possui um dos sistemas de internação mais punitivos para jovens —, a opinião pública tende a associar a maioridade penal a uma solução rápida para a criminalidade. Esse dado é especialmente relevante em ano eleitoral, quando candidatos costumam incorporar a pauta em suas plataformas.
A pesquisa também mostra que, apesar de posições conservadoras majoritárias, há variações regionais e geracionais significativas. Nas regiões Norte e Nordeste, a rejeição ao aborto é ainda maior (acima de 80%), enquanto no Sudeste e Sul o apoio à redução da maioridade penal é ligeiramente inferior à média nacional. Entre os jovens de 16 a 24 anos, o apoio à redução cai para 62%, indicando que as novas gerações podem estar mais abertas a abordagens alternativas de justiça restaurativa.
**Fontes**
Os dados apresentados são da pesquisa de opinião pública realizada pelo instituto Ipsos-Ipec, encomendada por veículos de comunicação e divulgada em 14 de outubro de 2026. A metodologia completa e o questionário estão disponíveis no site do instituto (www.ipsos-ipec.com.br).
Por Renan Filho · 2026-10-14