**Lead**
A véspera do segundo turno das eleições presidenciais brasileiras chega com a mais apertada margem já registrada em uma disputa democrática no país. Levantamento BTG/Nexus divulgado neste sábado (24) aponta o candidato Flávio com 50,5% dos votos válidos, contra 49,5% de Luiz Inácio Lula da Silva. A diferença de apenas um ponto percentual está dentro da margem de erro de dois pontos, configurando empate técnico. O cenário de incerteza política já provoca reações imediatas nos mercados financeiros, com o dólar operando em alta e a Bolsa de Valores de São Paulo (B3) apresentando forte volatilidade nos segmentos mais sensíveis ao risco fiscal.
**Contexto**
A pesquisa BTG/Nexus foi realizada entre os dias 22 e 23 de outubro, ouvindo 2.000 eleitores em todo o território nacional. O levantamento tem registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O instituto é uma parceria entre o banco BTG Pactual e a Nexus, consolidada como referência em análises de intenção de voto com viés econômico. O resultado reforça a tendência observada nos últimos dias de pesquisas de outros institutos, como Datafolha e Quaest, que já indicavam a redução da vantagem de Lula sobre o adversário.
Flávio, ex-governador de estado e figura emergente no cenário político nacional, construiu sua candidatura em torno de pautas de segurança pública e reformas pró-mercado. Já Lula, ex-presidente e líder da esquerda, defende a retomada de políticas sociais e maior intervenção estatal na economia. A indefinição sobre quem assumirá o Palácio do Planalto a partir de 1º de janeiro de 2027 gera expectativas contrastantes entre agentes econômicos.
Na sexta-feira (23), antes da divulgação do BTG/Nexus, o mercado já operava com cautela. O dólar comercial fechou cotado a R$ 5,82, com alta de 0,8% no dia. Os contratos de juros futuros para 2028 e 2029 subiram, sinalizam preocupação com a trajetória da dívida pública independentemente do vencedor. A curva de juros passou a embutir uma Selic terminal mais elevada, acima dos 12% ao ano atuais, caso o novo governo não apresente um plano crível de ajuste fiscal.
**Análise**
O resultado da pesquisa acende um alerta porque elimina a possibilidade de um resultado folgado que permitiria a formação de um governo com mandato claro para implementar reformas. Na visão de analistas do mercado financeiro, uma vitória de Flávio seria recebida com otimismo inicial por suas propostas de redução do Estado e simplificação tributária, mas o apoio parlamentar restrito e a ausência de maioria no Congresso podem gerar frustração. Por outro lado, uma vitória de Lula traria alívio para a base social, mas acentuaria as preocupações com o teto de gastos e a independência do Banco Central.
A economia real já sente os efeitos do impasse. Grandes grupos empresariais adiam decisões de investimento de longo prazo. O setor de infraestrutura, especialmente concessões de rodovias e ferrovias, aguarda o desfecho para definir parcerias no novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A indústria automobilística, por sua vez, condiciona novos lançamentos no Brasil à política de incentivos e ao câmbio futuro.
Além do impacto doméstico, investidores estrangeiros reduziram a exposição ao Brasil na última semana. Dados do fluxo cambial do Banco Central mostram saída líquida de US$ 1,2 bilhão em investimentos estrangeiros em portfólio entre os dias 17 e 21 de outubro. Fundos soberanos e grandes gestoras globais, como BlackRock e Vanguard, mantêm posição neutra, aguardando definição para rebalancear suas carteiras de mercados emergentes.
A indefinição também pressiona o risco-país medido pelo Credit Default Swap (CDS) de 5 anos, que subiu 35 pontos-base na última semana, atingindo 245 pontos. Esse movimento encarece o custo de captação de empresas brasileiras no exterior e pode impactar projetos de expansão programados para 2027.
**Fontes**
- Pesquisa BTG/Nexus registrada no TSE sob o protocolo BR-01256/2026. Dados divulgados em coletiva de imprensa no dia 24 de outubro de 2026. - Relatório de Mercado do Banco BTG Pactual: “Impactos eleitorais sobre ativos brasileiros”, publicado em 23/10/2026. - Dados de fluxo cambial do Banco Central do Brasil, semana de 17 a 21 de outubro de 2026. - Boletim Focus do Banco Central, edição de 23 de outubro de 2026, com projeções de Selic e câmbio para o final de 2027.
Por Renan Filho · 2026-10-24