**Lead**
Uma operação coordenada de perfis digitais favoráveis ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) está expondo dados pessoais de eleitores que declararam voto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As publicações, que circulam em plataformas como X (antigo Twitter), Telegram e Instagram, incluem nomes completos, endereços e até números de telefone, acompanhadas de convocações explícitas para que seguidores formalizem denúncias junto ao Ministério Público Eleitoral e à Polícia Federal. O fenômeno, que ganhou força nas últimas semanas, levanta questões graves sobre privacidade digital, segurança de dados e os limites do ativismo político na internet.
**Contexto**
A prática de expor adversários políticos não é nova no Brasil, mas ganhou contornos mais agressivos com o avanço de ferramentas de scraping e cruzamento de bases de dados. No caso atual, os perfis pró-Flávio utilizam informações obtidas de fontes públicas — como listas de filiação partidária, registros de doações eleitorais e até dados vazados de aplicativos de pesquisas eleitorais — para montar dossiês simplificados de eleitores lulistas. As postagens geralmente trazem a frase “Denuncie esse eleitor” ou “Apoiador de Lula identificado — compartilhe para que as autoridades tomem providências”.
A campanha ocorre em um momento de alta polarização, com as eleições municipais de 2026 se aproximando e o país ainda dividido entre as bases de Lula e de Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro, que já foi alvo de investigações no caso das “rachadinhas” na Alerj, tem se posicionado como uma das vozes mais ativas da oposição no Senado. Seus apoiadores mais radicais, organizados em grupos de WhatsApp e canais fechados, têm atuado como uma espécie de “milícia digital” de denúncia, mirando cidadãos comuns que expressam apoio ao atual governo.
Especialistas em direito digital apontam que a exposição de dados pessoais com o intuito de incitar denúncias pode configurar crime de perseguição (stalking) e violação da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) já foi acionada por organizações de defesa dos direitos digitais, que pedem abertura de investigação contra os perfis identificados. Até o momento, nenhuma das plataformas envolvidas removeu as postagens de forma sistemática, o que levanta dúvidas sobre a eficácia dos mecanismos de moderação de conteúdo.
**Análise**
O fenômeno não é apenas político — ele tem implicações científicas e tecnológicas profundas. A capacidade de cruzar dados públicos e semi-públicos para criar perfis de comportamento eleitoral é um campo de estudo em expansão na ciência da computação e na análise de redes sociais. Pesquisadores da área de privacidade digital alertam que, embora os dados utilizados sejam tecnicamente públicos, o contexto de sua reunião e exposição com fins de perseguição política representa um abuso sistêmico. “O problema não é o dado individual, mas a curadoria agressiva e o chamado à ação”, explica um estudo do InternetLab, centro de pesquisa em direito e tecnologia. “Quando você pega um nome de uma lista de filiados e o combina com um endereço obtido em um vazamento, e ainda pede que pessoas denunciem aquele cidadão, você está criando um ambiente de intimidação que inibe a participação política.”
Do ponto de vista da ciência de dados, a operação revela como algoritmos simples de matching — que comparam listas de nomes e endereços — podem ser usados para fins de vigilância cidadã. Ferramentas de scraping, muitas vezes disponíveis gratuitamente em repositórios de código aberto, permitem que qualquer pessoa com conhecimentos básicos de programação colete milhares de registros em minutos. O que antes exigia uma equipe de investigadores hoje pode ser feito por um único operador com um notebook e uma conexão de internet.
O impacto social é igualmente preocupante. Relatos de eleitores que tiveram seus dados expostos indicam que muitos passaram a receber ameaças, ligações anônimas e até visitas de desconhecidos. Em cidades do interior, onde a polarização é ainda mais acirrada, há casos de pessoas que deixaram de frequentar espaços públicos por medo de represálias. A ciência política chama esse fenômeno de “efeito silenciador”: quando a exposição pública de opiniões se torna arriscada, a participação democrática encolhe.
**Fontes**
As informações deste artigo foram obtidas a partir de reportagens do portal UOL, que identificou ao menos 12 perfis ativos na operação; de notas técnicas do InternetLab sobre privacidade e vigilância digital; de comunicados da Associação Brasileira de Defesa dos Direitos Digitais (ABDD); e de postagens públicas nos perfis mencionados, arquivadas para verificação. Dados sobre o funcionamento de ferramentas de scraping foram extraídos de publicações acadêmicas do Simpósio Brasileiro de Segurança da Informação e de Sistemas Computacionais (SBSEG). Nenhum nome de pessoa comum foi reproduzido nesta reportagem para evitar a amplificação do dano.
Por Renan Filho · 2026-10-10