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Opiniao

Perfis pró-Flávio no Brasil e no exterior expõem eleitores de Lula e incentivam denúncias

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-10

Uma rede de perfis favoráveis ao senador Flávio Bolsonaro passou a publicar dados de eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva e estimula seguidores a enviar denúncias contra opositores no Brasil.

**Lead**

Perfis alinhados ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) intensificaram nas redes sociais uma campanha que expõe eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e incentiva a realização de denúncias contra esses cidadãos. As publicações, localizadas em contas no Brasil e no exterior, ganharam tração nesta semana e reacenderam o debate sobre os limites entre manifestação política, privacidade e segurança pública.

**Contexto**

As páginas analisadas pelo FORTIS NEWS publicam capturas de tela de comentários e posts em que eleitores de Lula aparecem com nome, foto e, em alguns casos, cidade ou bairro. As postagens convocam os seguidores a identificar os autores das mensagens e a formalizar boletins de ocorrência ou representações. A lógica apresentada pelos perfis é a de que críticas ao governo federal poderiam ser enquadradas como apologia ou incitação, enquadramento rejeitado por especialistas em direito digital.

Um dos perfis com maior alcance opera como se fosse um canal de notícias e utiliza linguagem típica de jornalismo policialesco. Outro, com sede declarada no exterior, publica listas com nomes de usuários que interagem com perfis oficiais de Lula e de ministros do governo. As informações são organizadas em planilhas e compartilhadas em grupos abertos no Telegram e no WhatsApp.

A prática não é inédita. Durante o governo de Jair Bolsonaro, redes de apoiadores chegaram a monitorar adversários e produzir dossiês. Desta vez, no entanto, a tática aparece ligada de forma mais clara à estratégia política de Flávio Bolsonaro, que tem usado suas redes para atacar a gestão petista e pedir investigações contra opositores.

Especialistas ouvidos pelo FORTIS NEWS apontam que a exposição pública de eleitores comuns pode configurar dano moral e violação à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). A legislação brasileira proíbe o tratamento de dados pessoais sem base legal, e a finalidade de expor cidadãos à perseguição não está entre as hipóteses permitidas. Além disso, a conduta pode ser enquadrada como assédio ou intimidação, dependendo dos desdobramentos.

A proliferação de contas no exterior dificulta a responsabilização judicial. Plataformas digitais nem sempre atendem com rapidez a pedidos de remoção de conteúdo vindos do Brasil. A falta de acordo internacional para crimes dessa natureza abre espaço para que as páginas continuem operando apesar das notificações.

**Análise**

A campanha representa uma escalada no enfrentamento político brasileiro. Até pouco tempo, a briga por narrativas nas redes ficava restrita ao campo das ideias e dos ataques verbais. Agora, há um deslocamento perigoso: o cidadão comum passa a ser tratado como alvo de investigação por sua preferência eleitoral. Ao incentivar denúncias a partir de dados expostos, os perfis tentam transferir o conflito político para o âmbito das delegacias e do Judiciário, com risco de sobrecarregar as instituições com registros sem fundamento.

Se por um lado a Constituição garante a liberdade de expressão e o direito de criticar governos, por outro o ordenamento jurídico protege a intimidade e a honra dos indivíduos. Não existe no Brasil qualquer hipótese legal que torne crime votar em um candidato ou manifestar apoio a um presidente. Tentar coibir essas manifestações por meio da exposição pública e da ameaça de denúncias é uma forma de intimidação que atinge diretamente a democracia.

O fenômeno também evidencia a dificuldade das plataformas em lidar com conteúdo coordenado. As redes sociais se tornaram o principal campo de batalha política do país, mas continuam operando com políticas frágeis de moderação quando o assunto é disseminação de dados pessoais e incitação à perseguição. A tendência, caso não haja resposta firme das autoridades e das empresas, é que as campanhas se tornem mais sofisticadas, com uso de ferramentas de automatização e mudança constante de perfis para escapar dos bloqueios.

**Fontes**

A reportagem baseou-se em publicações públicas localizadas em perfis no X (antigo Twitter), Telegram e Instagram, em notas técnicas da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD), na Lei Geral de Proteção de Dados (Lei 13.709/2018), na Constituição Federal e em análises de especialistas em direito digital citados ao longo do texto. O FORTIS NEWS não reproduziu os nomes das pessoas expostas nem os endereços das páginas para evitar a amplificação do conteúdo.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.