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O presidente do Paraguai, Santiago Peña, enfrenta nesta sexta-feira um julgamento político no Senado que pode resultar em sua destituição. A sessão, convocada por parlamentares da oposição, ocorre em meio a acusações de que Peña teria excedido suas atribuições ao negociar acordos com o Brasil sem a devida aprovação legislativa. O caso tem gerado forte expectativa em Brasília, onde o governo brasileiro acompanha de perto os desdobramentos, dada a importância do Paraguai como parceiro no Mercosul e na gestão da usina hidrelétrica de Itaipu.
**Contexto**
O processo contra Peña foi iniciado em outubro, quando um grupo de senadores da oposição protocolou uma denúncia alegando que o presidente teria violado a Constituição ao firmar entendimentos com o governo brasileiro sobre a revisão do Tratado de Itaipu sem submeter o texto ao Congresso. O tratado, assinado em 1973, rege a operação da maior hidrelétrica do mundo em geração de energia, e qualquer alteração exige aprovação parlamentar nos dois países. Peña, que assumiu em agosto de 2023, sempre defendeu que as negociações com o Brasil eram de caráter preliminar e não vinculantes.
A crise política se intensificou nas últimas semanas, com protestos de rua em Assunção e declarações inflamadas de líderes partidários. O Senado, composto por 45 membros, precisa de maioria simples para aprovar a abertura do julgamento e de dois terços para condenar o presidente. A oposição conta com 22 senadores, mas ainda busca convencer independentes e dissidentes do partido governista Colorado. O governo brasileiro, por sua vez, manteve silêncio oficial, mas fontes diplomáticas indicam que o Palácio do Itamaraty prepara cenários para uma eventual mudança de comando em Assunção.
**Análise**
O julgamento de Peña ocorre em um momento delicado para as relações bilaterais. O Brasil depende do Paraguai para a estabilidade do fornecimento de energia elétrica – cerca de 10% da energia consumida no Brasil vem de Itaipu – e para a manutenção de acordos comerciais no Mercosul. Uma eventual destituição de Peña poderia atrasar negociações em andamento, como a revisão do Anexo C do tratado de Itaipu, que define as bases financeiras da usina. Além disso, o Paraguai é um dos principais destinos de investimentos brasileiros no setor de agronegócio e infraestrutura.
Analistas políticos apontam que o julgamento reflete uma disputa interna no Paraguai entre setores que defendem maior autonomia em relação ao Brasil e aqueles que veem na parceria com o vizinho um caminho para o desenvolvimento. Peña, que pertence à ala mais pragmática do Partido Colorado, tem buscado equilibrar as demandas nacionalistas com a necessidade de manter boas relações com Brasília. Caso seja condenado, o vice-presidente Pedro Alliana assumiria o cargo, o que poderia representar uma guinada mais conservadora e menos alinhada ao Brasil.
**Fontes**
As informações foram baseadas em reportagens da agência Reuters, do jornal paraguaio ABC Color e do portal de notícias UOL, além de comunicados oficiais do Senado do Paraguai e do Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Dados sobre a geração de Itaipu são provenientes do relatório anual da usina (2024).
Por Renan Filho · 2026-11-06