**Lead**
O partido Likud, liderado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, conquistou 53 cadeiras no Parlamento israelense (Knesset) nas eleições realizadas na última terça-feira, mas o resultado ficou aquém da maioria absoluta de 61 assentos necessária para governar sem coalizão. O cenário político em Israel se fragmentou ainda mais, com nenhum bloco conseguindo formar governo de forma imediata, o que abre um período de negociações tensas e incertezas tanto para a política interna israelense quanto para seus aliados internacionais, incluindo o Brasil.
**Contexto**
As eleições em Israel ocorrem em um ambiente de profunda polarização. O Likud, sob Netanyahu, tem se mantido como a maior força política individual, mas o sistema proporcional israelense exige acordos complexos entre partidos. Nas últimas eleições, Netanyahu já havia enfrentado dificuldades para compor maioria, resultando em governos de união frágeis e novas eleições recorrentes — o país realizou cinco pleitos em menos de quatro anos. Desta vez, a conquista de 53 cadeiras representa um avanço em relação às 32 obtidas nas eleições anteriores, mas ainda insuficiente para garantir estabilidade.
Os partidos de direita e ultradireita, que tradicionalmente apoiam Netanyahu, somaram juntos cerca de 60 cadeiras, mas divergências internas sobre questões como reforma judiciária, política de assentamentos e relação com os palestinos dificultam a formação de um bloco coeso. Do outro lado, a oposição centrista e de esquerda, liderada por figuras como Benny Gantz e Yair Lapid, também não alcançou maioria, deixando o país em um impasse.
**Análise**
O resultado eleitoral expõe a incapacidade do sistema político israelense de produzir maiorias estáveis. Netanyahu, mesmo fortalecido individualmente, depende de legendas menores que impõem condições caras — como cargos ministeriais e promessas de políticas específicas — para integrar uma coalizão. A reforma do Judiciário, que gerou protestos massivos em 2023, continua sendo um ponto de ruptura: partidos ultraortodoxos e de extrema-direita pressionam por mudanças que a oposição considera ameaças à democracia.
Para o Brasil, a indefinição em Israel tem implicações diretas. O governo brasileiro mantém relações comerciais e diplomáticas importantes com Israel, especialmente nas áreas de tecnologia, defesa e agricultura. A instabilidade política israelense pode atrasar acordos bilaterais e dificultar a coordenação em fóruns multilaterais. Além disso, a postura do próximo governo israelense em relação ao conflito com os palestinos influencia a posição brasileira no Conselho de Segurança da ONU e em outros organismos. O Brasil, que historicamente defende uma solução de dois Estados, observa com preocupação o avanço de partidos que rejeitam essa perspectiva.
A comunidade judaica no Brasil, uma das maiores do mundo, também acompanha atentamente os desdobramentos. A polarização política em Israel reflete-se nas diásporas, com grupos pró e contra Netanyahu se manifestando. O impasse atual pode reforçar o sentimento de que a política israelense está paralisada, gerando frustração entre os que esperavam maior previsibilidade nas relações bilaterais.
**Perspectivas**
Netanyahu terá até 42 dias para tentar formar uma coalizão. Se falhar, o presidente de Israel poderá designar outro líder para tentar a mesma tarefa, ou o país poderá enfrentar novas eleições — o que seria um desgaste adicional. Analistas apontam que o Likud pode buscar um acordo com partidos árabes israelenses, algo inédito, ou com a legenda centrista de Gantz, mas ambos os cenários são politicamente delicados. Enquanto isso, a economia israelense, que vinha mostrando resiliência, pode sofrer com a incerteza política, afetando investimentos estrangeiros, inclusive brasileiros.
Do ponto de vista estratégico, o Brasil deve manter uma postura de expectativa, evitando alinhamentos prematuros. O Itamaraty provavelmente aguardará a formação do novo governo para retomar negociações. A indefinição em Israel, no entanto, abre espaço para que outros atores regionais, como os países do Golfo e a Turquia, ampliem sua influência no Oriente Médio, o que pode reconfigurar alianças e impactar os interesses brasileiros na região.
**Fontes**
As informações sobre os resultados eleitorais são baseadas em relatos da imprensa internacional, como Reuters, Associated Press e Haaretz, além de dados oficiais do Comitê Eleitoral Central de Israel. A análise de implicações para o Brasil considera reportagens do jornal Folha de S.Paulo e do portal UOL, bem como comunicados do Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Nenhuma declaração direta de figuras políticas foi utilizada, respeitando os limites de verificação.
Por Renan Filho · 2026-10-30