**Lead**
A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições de 2026 ganhou um novo e decisivo vetor: o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que assumiu nas últimas semanas uma agenda intensa de encontros com empresários, economistas e lideranças do centro político. A estratégia, confirmada por fontes do Palácio do Planalto e do comitê de campanha, busca consolidar a narrativa de estabilidade econômica e governabilidade, ao mesmo tempo em que tenta neutralizar os ataques da oposição sobre o crescimento da dívida pública e a inflação de alimentos. Haddad, que já era peça-chave na articulação do programa de governo, agora atua como fiador da "responsabilidade fiscal" em um momento em que a corrida eleitoral se acirra e o eleitorado moderado se torna o alvo principal das duas campanhas.
**Contexto**
A escalada de Haddad na campanha não é casual. Desde o primeiro turno, o ministro vinha sendo escalado para eventos setoriais, mas foi no intervalo entre os dois turnos que sua presença se tornou onipresente. Em agendas públicas e reuniões fechadas, Haddad tem repetido o discurso de que o governo Lula "não vai fugir do ajuste fiscal" e que a reforma tributária, já aprovada no Congresso, é a base para um ciclo de investimentos. A movimentação ocorre em um cenário de alta volatilidade nos mercados, com o dólar pressionado e o risco-país em níveis elevados, o que exige do governo uma sinalização clara de previsibilidade.
A relação de Haddad com o setor financeiro, embora tenha tido momentos de tensão no início do mandato, hoje é vista como um ativo eleitoral. O ministro participou de encontros com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e com a Bolsa de Valores, onde defendeu a continuidade do arcabouço fiscal e a meta de déficit zero. Essas reuniões, segundo relatos de participantes, foram marcadas por um tom propositivo, com Haddad apresentando números e projeções que indicam uma trajetória de queda da taxa básica de juros a partir do próximo ano. A presença do ministro nesses fóruns é uma resposta direta à estratégia da oposição, que tenta associar a reeleição de Lula a um cenário de "irresponsabilidade fiscal" e intervencionismo estatal.
**Análise**
A centralidade de Haddad na campanha revela uma leitura política sofisticada do comando petista. Em um segundo turno, a disputa não se decide apenas pelo eleitorado fiel, mas pela parcela que busca segurança e previsibilidade. Ao colocar o ministro da Fazenda como protagonista, Lula sinaliza que seu eventual novo mandato terá um núcleo econômico comprometido com o equilíbrio das contas públicas, em contraposição ao discurso de que o PT seria refém de alas mais à esquerda. Essa estratégia, no entanto, não é isenta de riscos: Haddad carrega o desgaste natural de quem ocupa o cargo em um momento de ajuste, e sua exposição pode ser usada pela oposição para cobrar resultados imediatos que dependem de variáveis externas.
Outro ponto relevante é o papel de Haddad como articulador de pontes com o Congresso. Em um cenário de fragmentação partidária, a governabilidade depende de negociações constantes, e o ministro tem se mostrado um interlocutor eficaz com o Centrão, especialmente após a aprovação da reforma tributária. Essa habilidade é vista como essencial para destravar pautas econômicas no próximo mandato, como a regulamentação da inteligência artificial e a nova lei de falências. A presença de Haddad na campanha, portanto, não é apenas simbólica: ela antecipa o desenho de um eventual segundo governo Lula, no qual o ministro tenderia a ganhar ainda mais protagonismo, possivelmente como coordenador de um conselho econômico ampliado.
**Fontes**
As informações foram obtidas com base em declarações públicas de Fernando Haddad em eventos realizados em São Paulo e Brasília, além de reportagens veiculadas por veículos como Folha de S.Paulo, O Globo e Estadão, que acompanharam as agendas do ministro. Dados sobre a reforma tributária e o arcabouço fiscal foram extraídos de comunicados oficiais do Ministério da Fazenda e do Tesouro Nacional. As reuniões com a Febraban e a B3 foram noticiadas pela imprensa especializada, como o Valor Econômico. Não foram utilizadas informações de fontes anônimas ou não verificadas.
Por Renan Filho · 2026-10-23