**Lead**
O Papa Leão XIV desembarcou na manhã desta sexta-feira em Buenos Aires, Argentina, dando início à sua primeira viagem apostólica à América Latina desde a eleição ao trono de Pedro. A visita, que inclui passagens por Argentina, Chile e Brasil, ocorre em um momento delicado para a Igreja Católica na região: dados recentes do Centro de Estudos da Religião indicam que o percentual de brasileiros que se declaram católicos caiu para o menor nível da história, enquanto o número de evangélicos e de pessoas sem religião atinge recordes. A segurança do pontífice foi reforçada após atentados frustrados na Europa, e o Vaticano confirmou que o Papa viaja com escolta reduzida, mas com protocolos de inteligência elevados.
**Contexto**
A viagem de Leão XIV — nome escolhido em referência ao Papa Leão XIII, conhecido por sua encíclica social *Rerum Novarum* — foi anunciada há seis meses como uma “peregrinação de reconciliação e esperança”. O roteiro inclui encontros com líderes indígenas na Argentina, uma missa campal no Santuário Nacional de Aparecida, em São Paulo, e reuniões com bispos brasileiros para discutir a crise de vocações e o fechamento de paróquias em áreas rurais.
O Brasil, que por séculos foi o maior país católico do mundo, vive uma transformação religiosa acelerada. Pesquisas do Datafolha e do IBGE mostram que, pela primeira vez, os católicos representam menos da metade da população brasileira. O crescimento pentecostal e neopentecostal, impulsionado por igrejas como a Assembleia de Deus e a Igreja Universal do Reino de Deus, tem atraído fiéis com discursos de prosperidade, cura e batalha espiritual. Ao mesmo tempo, o número de brasileiros que se declaram “sem religião” dobrou na última década, especialmente entre os jovens.
A segurança do Papa é uma preocupação central. Em outubro, a polícia italiana desarticulou uma célula extremista que planejava atacar o Vaticano. Em resposta, a Gendarmaria Vaticana e as forças de segurança dos países visitados montaram um esquema inédito de vigilância, com drones, sensores biométricos e agentes infiltrados nas multidões. O governo brasileiro mobilizou efetivos da Força Nacional e da Polícia Federal para acompanhar a comitiva papal em São Paulo e no Rio de Janeiro.
**Análise**
A visita de Leão XIV ocorre em um contexto de redefinição do papel da Igreja Católica na América Latina. Durante décadas, a Igreja foi um pilar institucional, com influência direta sobre governos, educação e cultura. Hoje, enfrenta concorrência direta de igrejas evangélicas que ocupam espaços urbanos e rurais com templos, rádios e canais de TV. O Papa, que já sinalizou uma linha mais conservadora em doutrina, mas aberta ao diálogo com movimentos sociais, tenta reverter a tendência com uma mensagem de “Igreja em saída”, priorizando periferias e comunidades indígenas.
Especialistas apontam que a queda de fiéis não é apenas um fenômeno brasileiro. Argentina e Chile também registraram redução no número de católicos, embora em ritmo menor. A diferença está na velocidade da transição religiosa no Brasil, onde a ausência de uma igreja estatal e a liberdade de culto permitiram uma fragmentação acelerada. Para o Vaticano, o Brasil é um termômetro: se a Igreja não conseguir reter fiéis aqui, dificilmente conseguirá em outros países do Sul Global.
A segurança do Papa, nesse cenário, ganha contornos simbólicos. Um atentado ou incidente grave durante a visita poderia acelerar ainda mais o afastamento dos fiéis, que associariam a Igreja a fragilidade ou perseguição. Por outro lado, uma visita bem-sucedida, com grandes multidões e cobertura midiática positiva, pode servir como catalisador para uma reação católica. O Vaticano aposta na figura carismática de Leão XIV — um papa latino-americano, filho de imigrantes italianos, que fala espanhol e português fluentemente — para reconectar a instituição com as bases.
**Fontes**
- Centro de Estudos da Religião (CER), Universidade Federal de Juiz de Fora. - Datafolha, pesquisa “Religião no Brasil 2025-2026”. - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Censo Demográfico 2022 e projeções. - Sala de Imprensa da Santa Sé, comunicados oficiais sobre a viagem apostólica. - Ministério da Justiça e Segurança Pública do Brasil, plano de segurança para a visita papal.
Por Renan Filho · 2026-11-06