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A oposição no Paraguai apresentou nesta quarta-feira (5) um pedido formal de impeachment contra o presidente Santiago Peña, responsabilizando-o pelo colapso de um banco digital que operava no país e atendia majoritariamente clientes brasileiros. A crise, que explodiu nas últimas semanas, deixou milhares de investidores sem acesso a seus depósitos e gerou protestos tanto em Assunção quanto em cidades brasileiras próximas à fronteira. O movimento é liderado pelo Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), maior legenda de oposição, que alega que o governo ignorou alertas sobre a fragilidade da instituição e falhou em proteger os consumidores.
**Contexto**
O banco digital em questão, cujo nome não foi divulgado oficialmente devido a restrições legais impostas pelo Banco Central do Paraguai, operava há cerca de três anos com uma licença de instituição de pagamento. Sua base de clientes era composta majoritariamente por brasileiros residentes no Paraguai e em cidades da tríplice fronteira, como Foz do Iguaçu e Ciudad del Este. A instituição oferecia taxas de juros atrativas e serviços de câmbio, mas, segundo investigações preliminares da Superintendência de Bancos, não mantinha reservas proporcionais ao volume de depósitos.
O estouro da bolha ocorreu no final de outubro, quando uma corrida bancária — desencadeada por rumores de insolvência — esgotou o caixa da empresa em menos de 48 horas. Clientes brasileiros relataram não conseguir acessar aplicativos nem sacar valores. Em resposta, o governo paraguaio decretou intervenção temporária e bloqueou os ativos da empresa, mas ainda não apresentou um plano de ressarcimento. Estima-se que o prejuízo atinja uma parcela significativa dos correntistas, muitos dos quais perderam economias de anos.
A oposição argumenta que o Banco Central do Paraguai, subordinado ao Ministério da Fazenda, já havia recebido denúncias sobre irregularidades contábeis do banco desde o início de 2025. Em julho, uma auditoria interna apontou discrepâncias, mas nenhuma medida drástica foi tomada. “O presidente Peña tinha conhecimento do risco e preferiu não agir, priorizando a imagem de inovação financeira do país”, afirmou, em nota, o líder do PLRA, Efraín Alegre. A declaração, porém, não pôde ser verificada de forma independente, e o Palácio de López nega qualquer omissão.
**Análise**
O pedido de impeachment representa o maior teste político para Santiago Peña desde que assumiu o cargo, em agosto de 2023. O presidente, do Partido Colorado, enfrenta uma oposição fragmentada, mas unida neste caso específico. A crise bancária expôs a fragilidade do modelo de fintechs paraguaias, que atraem capital estrangeiro com regulação frouxa. O país se tornou um hub para empresas de criptomoedas e bancos digitais, mas a falta de supervisão adequada agora cobra seu preço.
Para o Brasil, o episódio tem repercussões diretas. Milhares de brasileiros que utilizavam o banco para transações comerciais e remessas familiares ficaram no prejuízo. O Itamaraty já manifestou preocupação e pediu informações ao governo paraguaio. A crise também pode afetar o comércio bilateral na região de fronteira, onde o fluxo de capitais é intenso. Se o impeachment avançar, o Paraguai pode mergulhar em uma instabilidade política que prejudicaria ainda mais a confiança dos investidores.
A tramitação do pedido no Congresso é incerta. A oposição precisa de dois terços dos votos na Câmara dos Deputados para abrir o processo, e de maioria no Senado para condenar. O Partido Colorado detém a maioria nas duas casas, mas dissidências internas podem surgir. Analistas locais apontam que, mesmo que o impeachment não prossiga, o desgaste político de Peña já é significativo. A economia paraguaia, que vinha crescendo acima da média regional, pode sofrer com a fuga de capitais e a desconfiança no sistema financeiro.
**Fontes**
As informações foram obtidas a partir de comunicados oficiais do Congresso do Paraguai, da Superintendência de Bancos, de notas do Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA) e de reportagens da imprensa local, como o jornal ABC Color e a agência IP Paraguay. Dados sobre a crise bancária foram confirmados por fontes do Banco Central do Paraguai, que preferiram não se identificar devido ao sigilo regulatório.
Por Renan Filho · 2026-11-05