**Lead**
Em um cenário eleitoral descrito como “acirrado ao extremo”, o colunista Vinicius Torres Freire, da Folha de S.Paulo, sustenta que o resultado da disputa presidencial brasileira de 2026 dependerá menos de programas de governo e mais de fatores imponderáveis, como omissões da propaganda oficial, baixezas de bastidores e azares de última hora. A análise, publicada no dia 2 de outubro de 2026, ecoa a perplexidade de analistas que, a poucas semanas do primeiro turno, ainda não conseguem cravar um favorito claro. O texto aponta que, diferentemente de pleitos anteriores, a polarização entre Lula e Bolsonaro não se traduziu em vantagem numérica consolidada, e que a fatia de eleitores indecisos e dispostos a mudar de voto – estimada em torno de 15% a 20% do eleitorado – pode ser o verdadeiro termômetro da eleição.
**Contexto**
A campanha de 2026 chega ao seu momento mais tenso com indicadores econômicos mistos: a inflação acumulada em 12 meses gira em torno de 5,5%, o PIB cresceu 2,1% no primeiro semestre, mas o desemprego ainda atinge 9,3% da população economicamente ativa. A aprovação do governo federal oscila entre 38% e 42%, dependendo do instituto de pesquisa, enquanto a rejeição ao ex-presidente Bolsonaro se mantém em patamares elevados, acima de 45% em levantamentos recentes do Datafolha e do Ipec. Esses números, no entanto, não são suficientes para projetar um vencedor, pois a margem de erro das sondagens – geralmente de dois a três pontos percentuais – é maior do que a diferença entre os dois principais candidatos na média das pesquisas.
Freire lembra que, em 2022, Lula venceu Bolsonaro por uma diferença de cerca de 2,1 milhões de votos (50,9% contra 49,1%), resultado que só foi definido na apuração do segundo turno. Em 2026, o cenário se repete com um ingrediente adicional: o número de candidatos que podem tirar votos relevantes dos dois polos – nomes como Simone Tebet (MDB), Ciro Gomes (PDT) e Felipe D’Avila (Novo) – é maior, e a fragmentação partidária, agravada pela perda de fidelidade eleitoral de legendas médias, torna o mapa de alianças ainda mais instável.
**Análise**
O ponto central da coluna de Vinicius Torres Freire é que, em eleições tão apertadas, fatores aparentemente secundários ganham peso desproporcional. A omissão de um aliado importante em um comício, a ausência de um candidato a vice em uma região estratégica, a viralização de um vídeo fora de contexto – tudo isso pode mover centenas de milhares de votos, em um país onde cada voto vale tanto quanto o erro do adversário. “O imponderável é o que define o pleito”, escreve o colunista, em referência à incapacidade dos marqueteiros de controlar narrativas em tempo real, especialmente em um ambiente digital onde a desinformação circula mais rápido que os fact-checks.
Além disso, Freire alerta para as “baixezas” que emergem na reta final – acusações não verificadas, uso de fake news geolocalizadas, infiltração de bots e ataques pessoais que miram a família dos candidatos. Essas táticas, embora repudiadas publicamente pelas campanhas, são empregadas nos bastidores por grupos de apoio que atuam sem coordenação central, mas com alto poder de mobilização. O colunista menciona que, em 2022, a disseminação de fake news sobre o kit anti-covid e a vacinação infantil foi um dos fatores que reduziram a vantagem de Lula em estados do Sul e do Sudeste. Em 2026, com o uso intensificado de inteligência artificial para criar deepfakes, o risco de uma “bomba” de última hora é ainda maior.
O “azar”, por sua vez, refere-se a eventos imprevisíveis que podem distorcer a campanha – desde uma crise internacional que afete o preço do petróleo e o câmbio, até uma catástrofe natural que obrigue o governo a desviar recursos e atenção. Freire cita como exemplo a enchente histórica no Rio Grande do Sul em maio de 2024, que, na época, forçou o governo federal a mudar a agenda eleitoral e adiar compromissos de campanha de vários candidatos. Nada impede que um evento semelhante ocorra nos dias que antecedem o pleito, desorganizando a logística de votação e, mais importante, alterando o humor do eleitorado.
**Fontes**
- Coluna de Vinicius Torres Freire, Folha de S.Paulo, edição de 2 de outubro de 2026. - Pesquisas de intenção de voto: Datafolha (27-28 de setembro de 2026), Ipec (29-30 de setembro de 2026). - Dados macroeconômicos: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Relatório Focus/Banco Central (setembro de 2026).
Por Renan Filho · 2026-10-02