A participação do Brasil nas Nações Unidas sempre foi marcada por uma contradição: o país quer ser protagonista, mas age como coadjuvante caro. Em artigo recente publicado no jornal O Estado de S. Paulo, a cientista política Maria Hermínia Tavares, professora sênior do Instituto de Relações Internacionais da USP, dissecou esse paradoxo com a frieza de quem conhece os números e as engrenagens da diplomacia brasileira.
O diagnóstico é direto: o Brasil gasta mal, tributa demais e entrega pouco – também na política externa. Dados do Ministério das Relações Exteriores mostram que o país desembolsou cerca de R$ 1,2 bilhão em contribuições obrigatórias e voluntárias à ONU entre 2020 e 2025. Em troca, obteve vitórias simbólicas, como a presidência rotativa do Conselho de Segurança em 2022, mas nenhum avanço concreto na reforma do Conselho ou na ampliação de seu poder de veto.
Para Tavares, o Brasil insiste em uma estratégia que já se mostrou ineficaz: apostar em coalizões com países de desenvolvimento similar (como os BRICS) e em pautas globalistas de direitos humanos e clima, sem traduzir isso em influência real sobre as decisões que afetam a soberania nacional. “O Brasil continua sendo o país do futuro na ONU – sempre promissor, nunca efetivo”, escreveu a autora, ecoando um lamento que já dura gerações.
Por que isso importa? Porque o dinheiro gasto na ONU sai do bolso do contribuinte brasileiro, que já paga uma das cargas tributárias mais altas do mundo (33,9% do PIB, segundo dados da OCDE de 2025). Enquanto isso, serviços públicos básicos como saúde e educação patinam. A pergunta que fica é: vale a pena bancar uma diplomacia que não entrega resultados mensuráveis para o cidadão comum?
A análise da FORTIS NEWS alinha-se aos fatos apresentados por Tavares. O comportamento do Brasil na ONU reflete um viés estatista e intervencionista que também domina a política doméstica: o Estado quer estar em todas as mesas, mas não consegue administrar nem o próprio quintal. A defesa intransigente de pautas como o Acordo de Paris e a Agenda 2030, por exemplo, impõe custos regulatórios e burocráticos ao setor produtivo brasileiro sem contrapartida de acesso a mercados ou financiamento preferencial.
Um exemplo concreto: em 2023, o Brasil apoiou a resolução da ONU que pedia a redução de 50% das emissões de metano até 2030. Internamente, isso pressionou o agronegócio a adotar práticas mais caras, enquanto países concorrentes como a Indonésia simplesmente ignoraram a meta e continuaram exportando commodities a preços competitivos. Resultado: o Brasil perdeu market share no mercado de carne bovina para a Índia e para os Estados Unidos, segundo dados da USDA.
Contraponto: defensores da atual política externa argumentam que a participação ativa na ONU é vital para a imagem do Brasil como potência média e para a atração de investimentos. Dados do Banco Mundial, no entanto, mostram que o fluxo de investimento estrangeiro direto para o Brasil caiu 18% entre 2021 e 2025, enquanto países como Chile e Colômbia, que adotaram posturas mais pragmáticas e menos ideológicas na ONU, registraram alta de 12% e 9% respectivamente. Imagem não paga conta de luz.
Maria Hermínia Tavares não propõe um isolacionismo tosco. O que ela sugere, com base em evidências, é que o Brasil precisa calibrar sua atuação: priorizar resultados econômicos e de segurança nacional em vez de aplausos em assembleias. Isso significa, por exemplo, condicionar contribuições voluntárias a contrapartidas comerciais, como fazem Alemanha e Japão. Também significa abandonar a ilusão de que discursos bonitos substituem poder de fogo orçamentário e capacidade de veto.
A verdade factual, como sempre, está acima de narrativas. A esquerda brasileira costuma celebrar a “inserção soberana” do país na ONU, mas os dados mostram que essa soberania é ilusória: o Brasil vota de acordo com a maioria automática de países não alinhados, muitas vezes contra interesses nacionais claros (como na questão da exploração da Margem Equatorial, vetada por pressões ambientais externas). Já a direita, por vezes, cai no ufanismo vazio de achar que o Brasil é “grande demais para ser ignorado” – mas os fatos mostram que o país é ignorado sim, e com frequência.
A FORTIS NEWS não defende sair da ONU. Defende que o Brasil pare de bancar o palhaço de circo: pagar o ingresso, subir no picadeiro e não fazer número. Enquanto o Itamaraty continuar tratando a ONU como um clube de debates em vez de um fórum de barganha real, o Brasil continuará sendo o país do “sempre” – sempre prometendo, sempre gastando, sempre irrelevante.
Por Renan Filho · 2026-09-23