**Lead**
A proximidade das eleições no Brasil traz consigo uma pergunta que ecoa nos estádios, nos centros de treinamento e nas conversas de torcedores: o que o esporte pode ganhar depois da votação? Não se trata apenas de promessas de campanha ou de verbas emergenciais. A pergunta é mais profunda e envolve um projeto de nação que coloque o esporte como política de Estado, não como moeda de troca eleitoral. A resposta, porém, depende de um olhar atento para as propostas que estão sendo apresentadas e para o histórico de cada candidato.
**Contexto**
O Brasil já sediou megaeventos esportivos, como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Na época, houve investimentos em infraestrutura e programas de incentivo. No entanto, muitos desses legados se perderam por falta de continuidade. Ginásios e estádios construídos para as competições hoje estão subutilizados, enquanto atletas de modalidades olímpicas enfrentam cortes de bolsas e dificuldades de patrocínio. O cenário atual é de incerteza: o orçamento do Ministério do Esporte sofreu reduções significativas nos últimos anos, e a Lei de Incentivo ao Esporte mantém-se como um dos poucos mecanismos de fomento, mas com alcance limitado.
Paralelamente, cresce o debate sobre a necessidade de um plano decenal para o esporte. Entidades como o Comitê Olímpico do Brasil e a Confederação Brasileira de Futebol já sinalizaram a importância de políticas que transcendam mandatos. A cada ciclo eleitoral, surgem propostas para a criação de secretarias especiais, aumento de recursos e reformulação do sistema de formação de atletas. O problema é que, sem uma visão de longo prazo, o esporte fica refém das trocas de governo e das crises fiscais.
**Análise**
O que se pode ganhar, de fato, depende da capacidade de transformar intenções em ações concretas. Se o próximo governo optar por uma abordagem integrada, que conecte educação, saúde e esporte, o Brasil poderá ver o surgimento de uma geração de atletas mais preparada, além de uma melhora na qualidade de vida da população. O esporte escolar, por exemplo, é um caminho comprovado para descubrir talentos e promover inclusão. Países que investem nessa base, como os Estados Unidos e a Austrália, colhem resultados consistentes em competições internacionais.
Outra frente é a captação de eventos. O Brasil tem potencial para sediar campeonatos mundiais em diversas modalidades, gerando emprego, turismo e visibilidade. No entanto, para que isso ocorra, é preciso garantir contrapartidas claras e transparência na aplicação dos recursos. A memória recente de escândalos de corrupção ligados a obras esportivas ainda pesa sobre a credibilidade do setor. Por isso, qualquer ganho eleitoral nessa área virá acompanhado da exigência de controle social e prestação de contas.
Além disso, o ambiente político pode influenciar diretamente a governança das federações e confederações. Uma eventual reforma nos estatutos e a adoção de mecanismos de compliance podem atrair patrocinadores privados, que hoje relutam em investir por receio de má gestão. A eleição, portanto, não é apenas sobre quem ocupa o Palácio do Planalto, mas sobre as regras do jogo que serão estabelecidas para os próximos anos.
**Fontes**
As reflexões apresentadas baseiam-se em análises de especialistas em gestão esportiva, em documentos públicos do Ministério do Esporte, em relatórios do Comitê Olímpico do Brasil e em reportagens de veículos como Folha de S.Paulo e O Globo sobre o legado dos megaeventos e o orçamento do esporte. Deborah Bizarria é jornalista e comentarista esportiva, com experiência na cobertura de políticas públicas para o setor.
Por Renan Filho · 2026-09-29