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Opiniao

Além de Daniel: a arte que peregrinou até Aparecida e ecoa a fé do Brasil

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-12

Cantores, atletas e artistas transformam a visita ao santuário em gesto público de devoção; reencontro com a fé move carreiras e plateias.

**Lead**

A imagem do cantor Daniel, levado de cadeira de rodas até o altar da Basílica de Nossa Senhora Aparecida, correu o país e tocou quem acompanha sua luta contra uma polineuropatia. Mas Daniel está longe de ser o único artista a transformar a peregrinação ao santuário em gesto público de fé. Ao longo das últimas décadas, o caminho até Aparecida foi percorrido por vozes, palcos e arquibancadas inteiras do imaginário brasileiro, num desfile de devoção que atravessa gêneros musicais, crenças e biografias.

**Contexto**

A história recente da música sertaneja é pródiga em romarias. Chitãozinho e Xororó, por exemplo, são figuras habituais em Aparecida. Em 2021, a dupla gravou um especial na basílica, com repertório religioso e canções que marcaram meio século de estrada. A apresentação foi ao ar em rede nacional e reforçou um vínculo antigo: os irmãos já haviam participado de missas e eventos beneficentes no Vale do Paraíba. Não é difícil entender por quê. O santuário, que recebe cerca de 12 milhões de romeiros por ano, é um dos maiores pontos de encontro entre fé e cultura popular do planeta, e a música sertaneja sempre encontrou ali um palco natural.

A relação, no entanto, não se limita ao sertanejo. Em 1997, o padre Marcelo Rossi, então no auge do fenômeno da música católica, levou multidões a Aparecida em celebrações que misturavam oração, pop e coreografia. A cantora Eliana, que mais tarde se tornaria apresentadora de TV, também participou de eventos no santuário e gravou canções religiosas para o público infantil. Até mesmo artistas distantes do universo religioso já fizeram questão de registrar passagem por ali. O cantor e compositor Fábio Jr., por exemplo, participou de shows beneficentes na região e visitou a basílica em ocasiões de agradecimento.

No futebol, a devoção a Nossa Senhora Aparecida é um capítulo à parte. O ex-jogador Pelé, que morreu em 2022, tinha uma relação pública com o santuário e visitou a basílica em diversas ocasiões. Em 2018, o atacante Neymar, então no Paris Saint-Germain, apareceu em vídeos rezando diante da imagem da santa após uma cirurgia no pé. O momento foi amplamente compartilhado nas redes sociais e ilustrou como a fé católica segue presente até entre atletas expostos ao glamour internacional. Mais recentemente, a jogadora Marta, considerada por muitos a maior do futebol feminino de todos os tempos, também manifestou publicamente sua devoção à santa e visitou o santuário em pelo menos uma ocasião após conquistas importantes.

**Análise**

O que essas peregrinações têm em comum é mais do que um gesto de fé. Elas funcionam como um espelho da religiosidade brasileira, que não separa vida pública e vida espiritual. Quando um artista ou atleta se ajoelha diante da imagem de Aparecida, ele está dialogando com o público de uma forma que ultrapassa a música ou o esporte. Está dizendo: eu sou como você, também tenho dores, também preciso de proteção. Esse gesto de humildade, num mundo de celebridades blindadas por assessores e holofotes, gera uma identificação imediata com o público.

No caso de Daniel, a comoção foi ainda mais forte porque sua presença em Aparecida não era um gesto de agradecimento por vitórias, mas de súplica por cura. O cantor, que vendeu milhões de discos ao lado de João Paulo e depois em carreira solo, luta há anos contra uma doença degenerativa que afeta os movimentos. Vê-lo naquela cadeira de rodas, emocionado, diante da santa padroeira do Brasil, foi um lembrete de que a fé católica, no imaginário popular, não é um adereço de palco, mas um recurso de sobrevivência. A cena ecoou uma tradição que vem de longe: a de um povo que caminha, canta e reza, muitas vezes com o corpo ferido, mas com a esperança intacta.

A peregrinação de artistas a Aparecida também reafirma o santuário como um território de encontro entre o sagrado e o profano. Ali, a cultura pop não é um ruído; é parte da celebração. Quando Chitãozinho e Xororó cantam Ave Maria no altar-mor, ou quando Neymar se ajoelha diante da imagem, não há contradição. Há, isso sim, a confirmação de que a identidade brasileira é feita de camadas: fé, música, esporte e sofrimento se misturam no mesmo chão. Em um tempo de redes sociais e polarização, ver um artista em lágrimas diante da santa é um raro ponto de união.

**Fontes**

As informações sobre as aparições e declarações de artistas e atletas referidas neste texto foram amplamente noticiadas pela imprensa nacional, incluindo registros de veículos como G1, UOL, ge e programas de TV aberta. Os fatos mencionados podem ser verificados em reportagens e vídeos de arquivo sobre as visitas de Chitãozinho e Xororó, padre Marcelo Rossi, Neymar, Marta e demais personalidades ao santuário de Aparecida.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.