**Lead**
O Brasil que lida historicamente com a desnutrição infantil agora observa um fenômeno que parece contraditório: um número crescente de crianças está acima do peso e, ao mesmo tempo, desnutrido. A condição, conhecida no meio científico como dupla carga da má nutrição, ocorre quando o consumo calórico é elevado, mas a qualidade nutricional é baixa. As crianças comem muito, porém mal — com excesso de ultraprocessados e deficiência de vitaminas e minerais. O alerta mobiliza pediatras, nutricionistas e gestores de saúde pública no Brasil.
**Contexto**
A compreensão da desnutrição mudou. Não se trata apenas da criança magra, com baixa estatura e peso abaixo do esperado. Desnutrição também pode se manifestar em uma criança com excesso de gordura corporal, carência de ferro, zinco, vitamina A e outras substâncias essenciais. O organismo dela até recebe energia, mas não recebe os nutrientes necessários para o desenvolvimento pleno.
No Brasil, a transição nutricional tem sido observada há décadas. Queda da desnutrição crônica em algumas regiões convive com o avanço da obesidade infantil. Estudos sobre alimentação e saúde indicam que a população brasileira vem reduzindo o consumo de arroz, feijão e hortaliças, ao mesmo tempo em que aumenta a ingestão de biscoitos recheados, refrigerantes, salgadinhos e refeições prontas. Esse padrão alimentar, somado a fatores como sedentarismo e exposição intensa à publicidade de alimentos, cria condições para que a criança ganhe peso sem ganhar saúde.
O ambiente escolar também pesa nesse cenário. Cantinas e lancheiras muitas vezes são dominadas por produtos de baixo valor nutricional. O acesso a alimentos regionalmente adequados varia muito entre estados e municípios. A realidade de uma criança na Região Norte, onde a insegurança alimentar ainda atinge famílias em situação de pobreza, é diferente da de uma criança de classe média urbana — mas o risco de má nutrição existe em ambas. Na primeira, pela escassez; na segunda, pela abundância de alimentos de má qualidade.
**Análise**
A importância desse alerta vai além da estética ou do peso na balança. Crianças com excesso de peso e deficiência de micronutrientes têm maior risco de desenvolver doenças metabólicas precoces, como resistência à insulina, hipertensão e dislipidemias. Também podem apresentar comprometimento da imunidade, dificuldade de aprendizado e atraso no crescimento. Quando o problema se instala na infância, tende a se arrastar pela adolescência e vida adulta, reforçando o ciclo de doenças crônicas que sobrecarrega o sistema de saúde.
Para a saúde pública brasileira, a dupla carga representa um desafio duplo. As políticas precisam combater a fome e a pobreza extrema sem ignorar a epidemia de obesidade. Programas de suplementação de micronutrientes, como os que historicamente combateram a deficiência de vitamina A e a anemia ferropriva, continuam relevantes. Mas é preciso ampliar a discussão para incluir educação alimentar e nutricional desde a primeira infância, regulação da publicidade de alimentos direcionada ao público infantil e melhoria da oferta de alimentos saudáveis nas escolas e nas periferias.
O Brasil já tem instrumentos importantes, como o Guia Alimentar para a População Brasileira, que recomenda priorizar alimentos in natura e minimamente processados. Também há políticas de fortalecimento da agricultura familiar e de compras públicas que destinam alimentos para a merenda escolar. No entanto, a efetividade dessas ações depende de implementação consistente, monitoramento contínuo e integração entre saúde, educação, assistência social e abastecimento. Sem uma abordagem sistêmica, o país corre o risco de reduzir a desnutrição clássica apenas para substituí-la por uma nova forma de carência, escondida sob a aparência de saúde.
A mensagem para pais, cuidadores e educadores é que atenção ao peso não pode significar descuido com a qualidade do que se come. Uma criança acima do peso não está, necessariamente, bem alimentada. O caminho mais seguro é oferecer alimentos variados, coloridos, ricos em vegetais, frutas, leguminosas e proteínas de boa qualidade, além de limitar o consumo de produtos ultraprocessados. O desafio é cultural e também social: exige acesso a informação e a alimentos adequados, em um país de dimensões continentais e enormes desigualdades.
**Fontes**
Este artigo reúne a discussão com base em ações e recomendações de entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Ministério da Saúde do Brasil, a Sociedade Brasileira de Pediatria e o Guia Alimentar para a População Brasileira. A dupla carga da má nutrição é um tema recorrente em literatura científica sobre transição nutricional na América Latina. Para informações específicas sobre seu filho, procure um pediatra ou nutricionista.
Por Renan Filho · 2026-10-16