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Em um ano marcado por eleições históricas e mudanças nos altos escalões do poder global, a pergunta ressurge com força: o poder tem gênero? De capitais da Europa a assembleias na América Latina, cresce o número de mulheres ocupando cadeiras antes restritas a homens. No entanto, analistas observam que, apesar dos avanços visíveis, a estrutura do poder ainda é majoritariamente masculina e os obstáculos para a paridade permanecem enraizados em normas culturais e institucionais.
**Contexto**
A trajetória da participação feminina na política e nos negócios é longa e permeada por barreiras. Ao longo do século XX, conquistas como o direito ao voto e o acesso à educação superior abriram caminho, mas foi apenas nas últimas décadas que mulheres alcançaram postos de chefe de Estado com maior frequência. Nomes como Angela Merkel, na Alemanha; Dilma Rousseff, no Brasil; e Ellen Johnson Sirleaf, na Libéria, tornaram-se símbolos de uma mudança lenta, porém significativa. No ambiente corporativo, a presença feminina em conselhos de administração e no topo de grandes empresas também cresceu, impulsionada por políticas de diversidade e pressão social.
Apesar desses exemplos, os dados compilados por organizações internacionais indicam que o progresso não é uniforme. Em parlamentos ao redor do mundo, a representação feminina ainda é minoritária em grande parte dos países. Em muitas regiões, as mulheres enfrentam violência política, assédio e discriminação institucional. O chamado "teto de vidro" continua a limitar o avanço, principalmente em setores como finanças, tecnologia e defesa. Além disso, as mulheres que alcançam o poder muitas vezes são submetidas a um escrutínio mais severo sobre sua aparência, vida pessoal e competência, um fenômeno documentado por estudos de mídia e ciência política.
No cenário internacional recente, a eleição de líderes femininas em países como México (Claudia Sheinbaum) e a ascensão de figuras como a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, reacenderam o debate. Enquanto algumas celebram a conquista de novos espaços, outras questionam se a mera presença feminina no poder é suficiente para transformar as estruturas de dominação. A polarização política atual também coloca em xeque a ideia de que mulheres no poder automaticamente promovem pautas de gênero ou lideram de forma mais colaborativa.
**Análise**
A pergunta "o poder tem gênero?" vai além da representação numérica. Ela toca na natureza do próprio poder: como ele é exercido, a quem serve e quais valores prioriza. Historiadoras e cientistas políticas apontam que o modelo tradicional de liderança foi historicamente associado a traços considerados masculinos — agressividade, competição, racionalidade fria. Mulheres que ascendem ao poder frequentemente precisam navegar entre a expectativa de adotar esses traços ou serem consideradas fracas, ou então exibir características femininas e serem rotuladas como emocionais ou incompetentes. Esse duplo vínculo é um dos mecanismos sutis que perpetuam a exclusão.
Ao mesmo tempo, estudos de caso mostram que mulheres em posições de liderança tendem a priorizar políticas sociais, educação e saúde, além de promoverem maior transparência e menor corrupção em alguns contextos. No entanto, a generalização é arriscada: líderes femininas podem governar de maneira tão diversa quanto seus colegas homens. O que parece importar mais é a diversidade de perspectivas nos centros de decisão. Conselhos e parlamentos com composição mais equilibrada tendem a produzir políticas mais inclusivas e inovadoras, segundo relatórios de entidades como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e o Fórum Econômico Mundial.
Em nível global, a questão também se conecta com movimentos sociais como o #MeToo e as ondas feministas que ganharam força a partir de 2017. Eles não apenas expuseram abusos, mas também exigiram uma reconfiguração das relações de poder no trabalho, na política e na família. A pressão por cotas de gênero em parlamentos e conselhos empresariais aumentou em diversos países, com resultados visíveis na Europa e na América Latina. Contudo, o retrocesso também é real: em nações com governos autoritários ou fundamentalistas, os direitos das mulheres são sistematicamente atacados, e a participação feminina no poder público encolhe.
A reflexão sobre se o poder tem gênero não se encerra com um simples sim ou não. Mais relevante é entender que as estruturas de poder foram moldadas por séculos de dominação masculina, e que desconstruí-las exige não apenas colocar mulheres em cargos de comando, mas também transformar as instituições, as normas e as próprias definições de liderança. O debate, portanto, é permanente e global, refletindo as tensões e esperanças de uma sociedade em busca de igualdade substantiva.
**Fontes**
Este artigo baseia-se em análises e relatórios de organizações como a ONU Mulheres, o Fórum Econômico Mundial (Global Gender Gap Report), a União Interparlamentar, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e estudos acadêmicos publicados em revistas de ciência política e sociologia. As tendências descritas refletem observações consolidadas dessas fontes, sem citação de dados numéricos específicos para respeitar as diretrizes editoriais.
Por Renan Filho · 2026-10-17