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A menos de duas semanas do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, o Brasil volta a se perguntar se o debate eleitoral televisionado ainda é o melhor caminho para informar o eleitor — ou se virou apenas um palco de ataques e frases de efeito. A pergunta ganha força diante da audiência em queda, da mediação cada vez mais contestada e de um eleitorado que diz, nas ruas e nas redes, estar cansado do confronto rasteiro. Mas, se o formato está em crise, a democracia brasileira ainda depende dele — e talvez nunca tenha precisado tanto de um debate de qualidade.
**Contexto**
Os debates presidenciais no Brasil têm tradição consolidada desde a redemocratização. Foram palco de momentos decisivos, como o embate entre Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva em 1989, que marcou a volta do voto direto, e o encontro entre Lula e Geraldo Alckmin em 2006, quando o então presidente enfrentou perguntas duras sobre o escândalo do mensalão. Mais recentemente, os confrontos de 2018 e 2022 foram marcados por ataques pessoais, desinformação e uma polarização que transformou o palco em extensão das redes sociais.
A crise não é exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos, o debate entre Joe Biden e Donald Trump em 2024 terminou com a desistência do então presidente, evidenciando a fragilidade do formato. No Brasil, a participação de candidatos é garantida por lei às siglas com representação no Congresso, mas a Justiça Eleitoral tem enfrentado dificuldades para obrigar presidenciáveis a comparecerem. A tentativa de criar debates sem a presença dos principais postulantes, como ocorreu em alguns estados em 2022, levantou dúvidas sobre a efetividade do modelo.
Pesquisas qualitativas realizadas por institutos de opinião ao longo dos últimos ciclos eleitorais indicam que uma parcela crescente do eleitorado busca informações em fontes alternativas, como podcasts, lives e canais de vídeo sob demanda. Esse movimento reduz a centralidade da televisão aberta e coloca os organizadores de debates diante de um dilema: manter o formato tradicional, com mediação rígida e tempo cronometrado, ou adaptar-se às novas linguagens sem perder a essência do contraditório.
**Análise**
O debate ainda vale a pena porque é um dos poucos espaços em que candidatos de diferentes campos são obrigados a se encontrar frente a frente, sem edição, sem filtro de algoritmos e sem a intermediação das redes sociais. Na era da desinformação, esse confronto direto tem valor democrático inestimável: permite ao eleitor comparar propostas, observar reações e, principalmente, testar a coerência dos discursos. Um candidato que se recusa a debater, ou que transforma o palco em ringue, entrega ao público uma informação valiosa sobre seu caráter e sua disposição para o diálogo.
Mas o formato precisa mudar. O modelo atual, com regras rígidas de tempo e blocos temáticos fechados, favorece a memorização de respostas ensaiadas e estimula o ataque pessoal como estratégia de visibilidade. Falta espaço para perguntas de especialistas, para o confronto real de ideias e para temas que atravessam a vida do cidadão comum, como saúde pública, educação e segurança. Se o debate continuar refém do marketing político, ele perderá relevância e acabará substituído por outras formas de comunicação — mais rápidas, mas também mais superficiais e mais fáceis de manipular.
A experiência brasileira mostra que, mesmo com todos os defeitos, os debates têm capacidade de pautar a eleição. Em 2014, a discussão sobre a reforma política ganhou tração após um embate televisionado. Em 2018, a segurança pública foi forçada para o centro do debate público a partir de questionamentos em um dos confrontos. Ou seja: o formato ainda é capaz de gerar consequências concretas, desde que haja compromisso das emissoras e dos candidatos com a qualidade da discussão.
O que está em jogo, portanto, não é a extinção do debate, mas sua reinvenção. A sociedade brasileira amadureceu, as campanhas se profissionalizaram e o eleitor ganhou novas ferramentas de informação. Exigir que o debate acompanhe essa evolução é mais do que razoável — é urgente. Mas abandoná-lo seria um erro histórico. Quando o contraditório desaparece, sobra espaço para o monólogo, e nenhuma democracia sobrevive sem conversa entre diferentes.
**Fontes**
Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com normas sobre propaganda eleitoral e debates; estudos acadêmicos sobre comunicação política e debates presidenciais no Brasil; cobertura jornalística dos debates de 1989, 2006, 2014, 2018 e 2022; relatos de organizadores de debates e especialistas em marketing político citados em reportagens anteriores do FORTIS NEWS e de outros veículos de imprensa nacional.
Por Renan Filho · 2026-10-20