Em um painel realizado na manhã desta quinta-feira (24) em Brasília, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), foi questionado sobre a recente declaração do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que, em tom de ironia, sugeriu que o prefeito fosse atendido em um hospital veterinário, dada a suposta qualidade dos serviços em comparação com a saúde humana no Brasil. Nunes, em resposta, afirmou que não se sentiu ofendido e atribuiu a fala do senador a uma “brincadeira” típica do estilo descontraído de Flávio, destacando que o foco deve ser a melhoria dos serviços públicos.
“Não me ofendi, o senador é um amigo. Ele faz essas brincadeiras para chamar a atenção para a pauta da saúde. Eu entendo. O problema é que nosso serviço público de saúde, em São Paulo e no Brasil, é caótico, e é legítimo que um parlamentar critique. Mas a solução não é brincar, é trabalhar por um sistema que funcione”, disse Nunes, em declaração à imprensa após o evento.
O episódio, que circulou nas redes sociais na última terça-feira, reacendeu o debate sobre a eficiência do Sistema Único de Saúde (SUS). Flávio Bolsonaro, que é senador e figura de destaque no bolsonarismo, frequentemente usa suas redes para criticar a gestão pública em estados e municípios, especialmente aqueles governados por partidos de centro, como o MDB. Em uma publicação, ele escreveu que “talvez o hospital veterinário atenda melhor que o SUS” e sugeriu que Nunes fosse lá para testar o atendimento.
Embora a frase tenha sido interpretada como uma provocação política, a resposta de Nunes demonstra uma tentativa de manter o diálogo com a base bolsonarista, da qual ele é aliado em diversos temas, especialmente na área de segurança pública. Vale lembrar que Nunes é um dos principais apoiadores da reeleição do presidente Jair Bolsonaro (PL) em 2022, e Flávio, embora atue no Senado, é um interlocutor frequente entre o governo federal e gestores municipais.
O contexto, porém, é mais amplo. A sugestão de Flávio toca em um ponto sensível: a crise crônica da saúde pública no Brasil. Dados oficiais do Ministério da Saúde mostram que, em 2024, o país gastou cerca de R$ 220 bilhões com o SUS, mas ainda assim enfrenta filas de até dois anos para cirurgias eletivas em diversos estados. Em São Paulo, a rede municipal de saúde, que atende 12 milhões de habitantes, registrou no ano passado mais de 1,7 milhão de pessoas aguardando consultas com especialistas, conforme dados da Secretaria Municipal da Saúde.
O próprio Nunes, em seu primeiro mandato, implementou um programa de parcerias com a iniciativa privada para reduzir filas, como o “Saúde Agora”, que destina leitos de hospitais particulares para pacientes do SUS com pagamento por diária. A medida, embora polêmica, tem mostrado resultados: a espera por ressonâncias magnéticas caiu de 90 para 30 dias em algumas regiões da capital. É exatamente essa lógica de eficiência que o FORTIS News defende: que o Estado foque em gestão e resultados, não em discursos vazios.
Por que isso importa? Porque a saúde é um dos maiores desafios da administração pública, e o debate sobre parcerias com o setor privado, como hospitais veterinários (que funcionam bem no Brasil), expõe a dicotomia entre a burocracia estatal e a eficiência de mercado. Se um hospital veterinário, que não recebe recursos públicos, consegue atender com rapidez e qualidade, por que a saúde humana, que consome bilhões, não consegue? A pergunta é incômoda, mas necessária.
A análise do FORTIS é direta: o Estado brasileiro gasta mal, tributa demais e entrega pouco. Não é novidade que a saúde pública sofre com corrupção, má gestão e falta de planejamento. A sugestão de Flávio Bolsonaro, ainda que irônica, aponta para um problema real: a saúde privada, inclusive a veterinária, frequentemente oferece melhor atendimento do que o SUS, não porque haja mais recursos, mas porque há competição e incentivo à qualidade. O mesmo modelo pode ser aplicado à saúde humana, com mais complementação via setor privado, como ocorre em países liberais como os EUA e a Suíça.
No contraponto, defensores do SUS argumentam que a comparação é injusta, pois hospitais veterinários atendem apenas animais, sem a complexidade do ser humano, e que a saúde pública lida com desigualdades sociais. De fato, o SUS é fundamental para milhões de brasileiros que não têm acesso à saúde privada. No entanto, isso não justifica a ineficiência. O SUS deve ser melhorado, mas sem abrir mão de parcerias e gestão profissional.
A reação de Nunes, ao minimizar a provocação, sinaliza que a disputa política não deve impedir o diálogo. Mas é preciso ir além: os gestores públicos precisam aceitar que o modelo atual de saúde, baseado exclusivamente no Estado, é insustentável. O exemplo do hospital veterinário, embora pareça uma piada, serve de alerta para a necessidade de reforma estrutural na administração pública.
Por Renan Filho · 2026-09-24