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Economia

Novo governo terá desafio duplo: recuperar planejamento energético e conter escalada de preços que corrói a indústria

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-23

A herança deixada pela atual gestão na área de energia é um mosaico de intervenções mal calculadas, subsídios cruzados e ausência de sinais de longo prazo. O próximo governo precisará agir com urgência para evitar apagão e colapso de custos.

O Brasil chega a 2026 com o setor elétrico em estado de alerta máximo. A combinação de secas prolongadas, falta de investimento em transmissão e uma política de preços que privilegia o curto prazo elevou a conta de luz a patamares históricos e colocou em xeque a competitividade da indústria nacional.

O novo governo, que tomará posse em janeiro, terá pela frente a missão de reconstruir o planejamento energético do país — abandonado nos últimos anos em favor de soluções emergenciais — e de conter a escalada de preços que já impacta diretamente o bolso do consumidor e a saúde das empresas.

Dados oficiais do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) mostram que o nível dos reservatórios das hidrelétricas das regiões Sudeste e Centro-Oeste fechou setembro em 34,2% da capacidade, o pior índice para o período desde a crise hídrica de 2021. A situação levou o governo a acionar as termelétricas a gás natural e a óleo diesel, cujo custo de geração é, em média, cinco vezes superior ao das hidrelétricas.

Esse acionamento emergencial, somado à bandeira tarifária vermelha patamar 2, elevou a tarifa média de energia para o consumidor residencial em 18,7% nos últimos doze meses, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Para a indústria, o impacto é ainda mais severo: o custo da energia elétrica para o setor manufatureiro subiu 23,4% no mesmo período, corroendo margens e reduzindo a competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional.

O problema não é apenas climático. A falta de investimento em linhas de transmissão e usinas de geração, aliada à burocracia para licenciamento ambiental, criou um gargalo estrutural que não se resolve com medidas pontuais. O leilão de transmissão realizado em junho deste ano, por exemplo, teve 38% dos lotes sem interessados, um sinal claro de que o ambiente de negócios não atrai capital privado — essencial para expandir a infraestrutura.

Por que isso importa agora? Porque o novo governo, seja qual for a composição, herda um sistema elétrico no limite. A dependência de termelétricas fósseis, além de mais cara, aumenta a emissão de gases de efeito estufa, comprometendo metas climáticas assumidas pelo Brasil em acordos internacionais. E o consumidor, que já enfrenta inflação de alimentos e combustíveis, vê a conta de luz consumir parcela cada vez maior do orçamento familiar.

A análise FORTIS é direta: o Estado brasileiro gasta mal, tributa demais e entrega pouco — e no setor elétrico isso fica evidente. A política de subsídios cruzados, que financia descontos para alguns setores com sobretaxas para outros, distorce os preços e penaliza quem produz. A solução passa por reformas estruturais que devolvam ao mercado o papel de sinalizar investimentos, com regras estáveis e previsíveis.

É preciso rever o modelo de tarifação, que hoje esconde custos reais e impede o consumidor de escolher entre fontes mais baratas. E é fundamental acelerar o licenciamento de usinas e linhas de transmissão, que hoje leva em média oito anos no Brasil, contra três em países como Chile e Colômbia. Sem isso, qualquer plano de retomada do crescimento esbarra no custo de energia.

Contraponto: há quem defenda que a solução é mais intervenção estatal, com a criação de uma estatal de energia e controle de preços. Essa receita, já testada no país nas décadas de 1970 e 1980, resultou em ineficiência, endividamento e racionamento. O mercado, quando bem regulado e com regras claras, é capaz de entregar energia mais barata e segura, como demonstram os leilões de fontes renováveis que bateram recordes de preço em 2022 e 2023.

O novo governo não pode repetir o erro de tratar a energia como questão ideológica. A pauta é técnica e econômica. O que está em jogo é a capacidade do Brasil de crescer, gerar empregos e competir globalmente. O próximo presidente e sua equipe econômica precisarão de coragem para enfrentar o lobby de setores que lucram com a confusão regulatória e de políticos que veem na tarifa de energia um instrumento de barganha eleitoral.

O caminho é conhecido: previsibilidade regulatória, segurança jurídica para investidores, redução da carga tributária sobre a eletricidade e abertura do mercado livre para todos os consumidores. Essas medidas, se implementadas com seriedade, podem reduzir a conta de luz em até 15% em dois anos, segundo estimativas de consultorias especializadas.

A escalada de preços não é inevitável. Ela é resultado de escolhas políticas equivocadas e de uma visão estatizante que trata o setor elétrico como caixa-preta do governo. O novo mandato que se inicia em 2026 é uma oportunidade histórica de correção de rota. Se o governo optar por mais do mesmo, o Brasil caminha para um futuro de energia cara, escassa e suja.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.