Pesquisa Datafolha publicada em 22 de setembro de 2026 mostra que 47% das mulheres chefes de família entrevistadas declararam intenção de voto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O senador Flávio Bolsonaro (PL) aparece com 27%, enquanto os demais candidatos somam 12% e 14% não souberam ou não responderam. O levantamento ouviu 2.016 eleitores em 126 municípios, com margem de erro de dois pontos percentuais.
O recorte é estratégico: mulheres chefes de família representam cerca de 35% dos domicílios brasileiros, segundo dados do IBGE de 2025. Esse eleitorado, majoritariamente feminino, vivencia de forma mais aguda os efeitos da inflação sobre o orçamento doméstico e depende mais diretamente de programas de transferência de renda. Lula, que construiu sua imagem pública em torno do Bolsa Família e do aumento real do salário mínimo, colhe os frutos dessa associação.
Por que isso importa? O resultado sinaliza que a coalizão de costumes e liberalismo econômico defendida pelo campo conservador ainda não consegue penetrar com força nesse segmento. Flávio Bolsonaro, embora lidere entre homens (39% contra 28% de Lula nesse grupo), amarga uma diferença de 20 pontos percentuais no eleitorado feminino provedor. Uma reversão desse quadro exigiria mudanças na comunicação e na oferta de propostas que ataquem diretamente a vulnerabilidade financeira dessas mulheres.
Análise FORTIS: Os números confirmam um padrão histórico. Desde 2002, Lula e seus sucessores petistas obtêm vantagem entre eleitores de menor renda, especialmente mulheres negras e chefes de família. A novidade é que a vantagem de 20 pontos ocorre mesmo com a inflação de alimentos e energia acima da meta em 2025 e 2026. Isso sugere que a fidelidade ao petista não é apenas racional (cálculo de benefícios recebidos), mas também emocional e identitária. A direita, ao focar quase exclusivamente na pauta de costumes e no combate à corrupção, negligencia o debate sobre a política fiscal que penaliza justamente as famílias monoparentais — alta carga tributária sobre consumo, baixa eficiência do gasto público e serviços precários. O estado brasileiro gasta mal e tributa demais, e quem paga a conta é quem precisa comprar arroz e leite todo mês.
Contraponto: Dados oficiais mostram que o gasto social do governo Lula cresceu 12% acima da inflação entre 2023 e 2025, mas a pobreza extrema caiu apenas 1,5 ponto percentual no mesmo período, segundo o Ministério do Desenvolvimento Social. Ou seja, o dinheiro chega, mas não se converte em autonomia econômica para as mulheres chefes de família. Programas como o Auxílio Brasil (rebatizado de Bolsa Família) geram dependência e não estimulam a emancipação produtiva. Flávio Bolsonaro, por sua vez, defende a simplificação tributária, a reforma administrativa e a ampliação do crédito consignado para empreendedoras — pautas que poderiam atrair essas eleitoras, mas que ainda são mal comunicadas. Além disso, o senador carrega o peso do desgaste do governo de seu pai, especialmente na gestão da pandemia e na condução da economia, o que afeta sua aceitação entre mulheres que associam o sobrenome Bolsonaro à desorganização fiscal.
A pesquisa também revela que, entre mulheres chefes de família com ensino superior completo, a vantagem de Lula cai para 8 pontos (39% contra 31% de Flávio). Isso indica que o eleitorado feminino mais escolarizado — e potencialmente mais informado sobre o impacto da dívida pública e da carga tributária — está mais aberto a uma alternativa de centro-direita. O desafio de Flávio Bolsonaro é estender esse apelo às mulheres de baixa escolaridade, que hoje o rejeitam em larga escala.
Por Renan Filho · 2026-09-22