Uma candidata de papelão. Não é metáfora da falta de carisma, mas a mais nova estratégia de campanha virtual que ganhou as ruas do Rio de Janeiro. Luciana Ramagem, mulher do deputado federal Alexandre Ramagem (PL), transformou a candidatura de Brenda Ortiz (PL) a deputada estadual em um experimento de marketing político de baixíssimo custo e altíssimo impacto: bonecos de papelão espalhados por pontos estratégicos da cidade, cada um com QR code que leva o pedestre direto ao site de doações e propostas da candidata.
A ação, documentada em vídeos publicados nas redes sociais de Luciana, mostra a estrategista vestida de forma discreta, colando os bonecos em postes e muros com autorização dos comerciantes locais. “Estamos levando a candidata para onde o povo está, sem gastar milhões com cabos eleitorais”, afirmou Luciana em post no Instagram, segundo prints coletados pelo FORTIS NEWS. A ideia é simples: em vez de contratar dezenas de pessoas para panfletar, a campanha usa tecnologia para transformar cada pedestre em potencial eleitor e doador.
O contexto é crucial. O Rio de Janeiro vive uma das eleições mais caras da história, com gastos totais estimados em R$ 1,2 bilhão, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — valor que abastece um mercado de cabos eleitorais, gráficas e empresas de marketing político que muitas vezes operam à margem da lei. A candidata Brenda Ortiz, psicóloga de 32 anos e estreante na política, não tem acesso a esses recursos. Sua campanha, orçada em menos de R$ 50 mil, depende de doações de pequenos empresários e de ações criativas como a dos bonecos de papelão.
Por que isso importa? Porque expõe a falência do modelo tradicional de campanha, onde quem tem mais dinheiro contrata mais cabos eleitorais, compra mais espaços em rádio e TV e, no fim, elege-se com baixo vínculo real com o eleitor. A candidata de papelão é um sintoma da liberdade de empreender na política — sem amarras partidárias ou currais eleitorais, qualquer cidadão pode testar formas inovadoras de alcançar o eleitorado. Mas também escancara a burocracia: candidatos sem recursos são forçados a apelar para o improviso, enquanto partidos grandes recebem milhões do fundo eleitoral.
Do ponto de vista liberal, a ação de Luciana Ramagem é um sopro de ar fresco num sistema asfixiado por subsídios e regulamentações. A campanha virtual com bonecos de papelão usa a rua como palco, mas a web como motor — cada QR code gera tráfego para o site, onde o eleitor pode doar via PIX ou mesmo assinar um termo de apoio voluntário. Não há cabresto, não há promessa de emprego público. O vínculo é direto, raso e, por isso mesmo, mais honesto. “A política não precisa de intermediários”, escreveu Brenda Ortiz em nota enviada à imprensa, sem citar o FORTIS NEWS.
Contudo, há quem veja a tática como sinal de fragilidade. Críticos apontam que a falta de contato humano pode enfraquecer a representatividade, transformando candidatos em itens de merchandising. Em entrevista à Rádio CBN, o cientista político Christian Lynch afirmou que “a campanha de papelão é um espelho da despolitização da sociedade: o eleitor vê um boneco, escaneia um código e acredita que participa, mas na verdade apenas consome mais um produto digital”. A crítica tem fundamento: a política de QR code pode reduzir o debate público a um clique.
Mas o FORTIS NEWS pondera: se o sistema eleitoral fosse mais livre, com menos exigências de documentos e prazos, candidatos como Brenda Ortiz não precisariam de papelão para serem vistos. Por que, afinal, uma psicóloga com propostas concretas para a saúde pública precisa disputar espaço com outdoors financiados por empreiteiras? A resposta é simples: o Estado capturou a política. Enquanto partidos tradicionais sugam o fundo partidário, candidatos inovadores são empurrados para o improviso.
A experiência carioca já gerou repercussão nacional. Em grupos de WhatsApp de campanhas liberais, a ideia dos bonecos de papelão é discutida como modelo replicável para eleições municipais de 2026. Se depender da receptividade nas ruas, a candidata de papelão pode se tornar a primeira deputada estadual eleita sem nunca ter apertado uma mão pessoalmente — ironia máxima para uma política que ainda se agarra ao corpo a corpo como fetiche.
O contraponto final vem da própria legislação: a Justiça Eleitoral pode multar a campanha caso entenda que os bonecos de papelão configuram propaganda irregular em bens públicos. O artigo 37 da Resolução TSE 23.610/2019 proíbe a fixação de propaganda em postes e muros sem autorização do órgão público. Até o fechamento desta edição, a campanha de Brenda Ortiz não foi notificada, mas a advogada eleitoral da candidata declarou à imprensa que “a ação é legal, pois os bonecos foram colados com permissão dos proprietários dos locais — e não em bens públicos”.
Seja como for, o caso revela que a política brasileira ainda engatinha na era digital. Enquanto o Estado mantém regras desenhadas para o século XX, candidatos do século XXI usam papelão e QR code para driblar a burocracia — uma lição de empreendedorismo que qualquer liberal aplaude, mas que também denuncia o quanto falta liberdade de fato.
Por Renan Filho · 2026-09-20