**Lead**
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), afirmou nesta segunda-feira, 28 de outubro, que ainda não discutiu com o governo federal as prioridades legislativas para o período até o fim do ano. A declaração foi dada durante coletiva de imprensa em Brasília, após reunião com líderes partidários. Motta ressaltou que não há um cronograma definido para votação de projetos considerados centrais pelo Palácio do Planalto, como o novo marco fiscal e a regulamentação da reforma tributária.
**Contexto**
A fala de Motta ocorre em um momento em que o Congresso precisa analisar o Orçamento de 2027 e uma série de medidas provisórias que trancam a pauta do plenário. O governo Lula, que enfrenta dificuldades para aprovar mudanças na meta de resultado primário, esperava contar com a base aliada para acelerar votações antes do recesso parlamentar, que começa em dezembro. No entanto, Motta, que assumiu a presidência da Câmara em fevereiro de 2025, tem adotado um discurso de independência e buscado negociar ponto a ponto com líderes partidários, o que, na visão de analistas, reduz o ritmo das deliberações.
Desde o início do atual governo, a relação entre o Legislativo e o Executivo tem sido marcada por negociações complexas, envolvendo emendas parlamentares, cargos em estatais e liberação de verbas. Motta, por sua vez, já demonstrou que não pretende ser um mero executor da agenda governista, mas sim manter um protagonismo da Câmara em decisões estruturais. A ausência de um diálogo formal sobre as prioridades até o fim do ano alimenta especulações sobre um possível esvaziamento da pauta econômica no último bimestre.
O governo ainda não enviou ao Congresso a proposta de alteração do arcabouço fiscal, que promete ser um dos temas mais sensíveis do ano. A equipe econômica, liderada pelo ministro Fernando Haddad, defende a necessidade de ajuste nas contas públicas, mas a base parlamentar resiste a medidas que impliquem em corte de despesas. Além disso, a regulamentação da reforma tributária, aprovada em emendas anteriores, depende de projetos complementares que ainda não foram votados no plenário da Câmara.
**Análise**
A declaração de Motta expõe um racha silencioso entre o Palácio do Planalto e o comando da Câmara, em um período em que o mercado e os investidores acompanham com atenção os destinos fiscais do país. Sem uma agenda clara, a tendência é que o Congresso encerre o ano com um baixo índice de produtividade, o que pode comprometer a credibilidade do governo no exterior. Especialistas em ciência política apontam que a falta de prioridades definidas em conjunto gera incerteza e abre espaço para que pautas menos relevantes avancem, enquanto reformas estruturais ficam para depois.
Outro fator relevante é o calendário eleitoral. Com as eleições estaduais programadas para 2026, muitos deputados já estão envolvidos em articulações regionais, o que reduz a disposição para enfrentarem temas impopulares, como aumento de impostos ou ajustes em benefícios sociais. Motta, que é peça-chave nesse jogo, parece estar aguardando que o governo ofereça maior clareza sobre os impactos das medidas para então construir consenso. Em sua fala, ele também mencionou que a Câmara não pode simplesmente “atropelar” a tramitação de projetos complexos, indicando que não há prioridade absoluta.
Para o governo, o risco é que o fim do ano seja marcado por um “apagão legislativo”, sem a aprovação de leis necessárias para o funcionamento da máquina pública e para a implementação de programas sociais. A ausência de um calendário conjunto pode ainda provocar crises institucionais, como já ocorreu em momentos anteriores, quando o Congresso devolveu medidas provisórias ou rejeitou vetos presidenciais. A expectativa é de que, em dezembro, o governo tente retomar a ofensiva, mas com o tempo escasso, a tendência é que as negociações se concentrem apenas no Orçamento, deixando as demais pautas para o próximo ano.
Enquanto isso, Motta tem recebido líderes da oposição, que já sinalizaram apoio a uma eventual agenda alternativa, voltada para segurança pública e defesa do agronegócio. Esse movimento demonstra que o presidente da Câmara busca criar uma base própria, capaz de negociar tanto com o governo quanto com a oposição, consolidando seu nome como um ator central na política nacional. A indefinição sobre as prioridades, portanto, não é apenas um sintoma de desorganização, mas uma estratégia deliberada de Motta para ampliar seu poder de barganha.
**Fontes**
As informações são baseadas na coletiva de imprensa concedida pelo deputado Hugo Motta em Brasília, na manhã desta segunda-feira, e nas notícias veiculadas pelos portais de comunicação que acompanham o Congresso Nacional, como Agência Câmara e veículos de imprensa especializados em política. Não foram citadas fontes internas anônimas, e todas as afirmações são atribuídas diretamente ao presidente da Câmara.
Por Renan Filho · 2026-10-28