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Politica

Motta faz campanha paroquial e usa relação com Lula para ampliar poder na Paraíba

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-20

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), aposta em uma estratégia de articulação local e proximidade com o Planalto para consolidar seu domínio político no estado. A aliança com Lula, embora pragmática, levanta questionamentos sobre a independência do Legislativo.

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), tem intensificado uma campanha política de caráter paroquial na Paraíba, combinando ações de bastidores com o uso ostensivo de sua relação pessoal com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O objetivo, segundo aliados e observadores, é transformar a influência nacional em poder local duradouro, mirando as eleições de 2026 e a sucessão no governo do estado.

Motta, que assumiu o comando da Casa em fevereiro de 2025 com o apoio de uma ampla coalizão que inclui desde o PT até o PL, não esconde a proximidade com Lula. Em publicação nas redes sociais, o deputado já exibiu encontros com o presidente e ministros petistas, reforçando a imagem de articulador capaz de trazer recursos e obras para a Paraíba. A estratégia é clara: usar o capital político acumulado em Brasília para alavancar candidaturas aliadas nos municípios e enfraquecer a oposição local, especialmente o grupo do ex-governador João Azevêdo (PSB).

Contexto: A Paraíba é um estado historicamente dominado por oligarquias, mas nos últimos anos assistiu a uma fragmentação do poder. Motta, oriundo de uma família política de Patos, no Sertão, construiu sua carreira como fiel escudeiro de figuras como o ex-senador Cássio Cunha Lima (PSDB) e depois migrou para o Republicanos, partido de centro-direita que hoje integra a base de Lula. Essa transição ideológica, porém, é tratada por Motta como pragmatismo: “o que importa é entregar resultados para o povo paraibano”, declarou em entrevista à Rádio Correio FM.

Por que importa: A atuação de Motta no estado ocorre em um momento delicado para a democracia brasileira. Críticos apontam que, ao mesclar as funções de presidente da Câmara com a liderança de uma frente política local, ele corre o risco de instrumentalizar o cargo para fins eleitorais. Em nota oficial, a assessoria de Motta negou qualquer irregularidade e afirmou que o deputado “cumpre sua agenda institucional e partidária de forma transparente”. No entanto, parlamentares da oposição ouvidos pela imprensa local denunciam o uso da máquina pública estadual para beneficiar aliados.

Análise FORTIS: A lógica liberal enxerga com desconfiança a concentração de poder nas mãos de um único líder, ainda mais quando esse líder utiliza a estrutura do Legislativo federal para interferir na política estadual. Não se trata de demonizar a articulação política, mas de alertar para os riscos de um presidencialismo de cooptação disfarçado de governabilidade. Motta, ao se aproximar de Lula, troca apoio ao governo por verbas e cargos — moeda velha no jogo político brasileiro. O problema é que isso reinforce um ciclo de dependência federativa, onde estados e municípios perdem autonomia e se tornam reféns de acordos centralizadores.

Contraponto: Defensores de Motta argumentam que sua atuação é legítima e que a ligação com Lula é circunstancial. O deputado sempre defendeu pautas liberais, como a reforma tributária e o arcabouço fiscal, mas não hesita em se alinhar ao governo quando necessário para aprovar matérias de interesse do país. Para eles, a campanha “paroquial” é apenas o exercício normal da política, e qualquer líder regional faria o mesmo. A questão, no entanto, é o nível de dependência: será que Hugo Motta conseguirá manter sua independência para fiscalizar o Executivo se estiver atrelado a Lula nas bases locais? Ou o preço da governabilidade será a submissão do Legislativo?

**P: Hugo Motta pode se candidatar ao governo da Paraíba em 2026?** R: Sim, ele é elegível e já é cogitado como pré-candidato. No entanto, precisará renunciar à presidência da Câmara até seis meses antes do pleito (abril de 2026) para concorrer. Sua aliança com Lula pode lhe garantir o apoio do PT local, mas desagradaria parte da base conservadora do Republicanos.

**P: Qual o risco para a democracia brasileira com essa concentração de poder?** R: Quando um presidente de um dos Poderes utiliza sua posição para turbinar sua carreira regional, há o perigo de desvirtuamento das funções institucionais. A separação entre a agenda do cargo e a agenda partidária se torna tênue, abrindo espaço para abusos de autoridade e cooptação de lideranças locais. Em um regime de separação de poderes, o ideal é que o ocupante do cargo superior atue com imparcialidade federativa, e não como cabo eleitoral de si mesmo.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.