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Internacional

Maria Hermínia Tavares analisa a metamorfose das direitas no Brasil e seus reflexos internacionais

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-07

Em artigo de opinião, a cientista política da USP examina como a direita brasileira se transformou de movimento liberal-conservador em força populista de extrema direita, com paralelos globais e impactos na política internacional.

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A cientista política Maria Hermínia Tavares, professora titular da Universidade de São Paulo (USP) e uma das mais respeitadas analistas do pensamento conservador no Brasil, publicou uma análise contundente sobre a metamorfose das direitas no país. Em artigo veiculado por veículos acadêmicos e de imprensa, Tavares argumenta que a direita brasileira passou por uma transformação profunda nas últimas décadas, saindo de um espectro liberal-democrático para abraçar pautas autoritárias, negacionistas e de confronto institucional. O fenômeno, segundo ela, não é isolado: insere-se em uma onda global de radicalização que atinge Estados Unidos, Europa e América Latina, com consequências diretas para a ordem internacional.

**Contexto**

Para entender a análise de Tavares, é preciso recuar ao menos aos anos 1980 e 1990, quando a direita brasileira se organizava em torno de partidos como o PFL (hoje União Brasil) e o PSDB — este último, embora de centro, abrigava alas conservadoras. Naquela época, o discurso era de defesa do livre mercado, da democracia representativa e de valores familiares tradicionais, mas dentro dos marcos constitucionais de 1988. Maria Hermínia Tavares, em seus estudos sobre elites políticas, já apontava que essa direita “civilizada” coexistia com setores mais radicais, como os militares da reserva e grupos religiosos fundamentalistas, que ganhariam força com a crise política de 2013-2016.

O ponto de inflexão, segundo a professora, foi o impeachment de Dilma Rousseff em 2016. A partir dali, a direita tradicional perdeu espaço para uma nova onda, encabeçada por figuras como Jair Bolsonaro, que combinava antipetismo, discurso de law and order, negacionismo científico e ataques ao Supremo Tribunal Federal. Tavares observa que essa metamorfose não foi espontânea: foi alimentada por uma rede internacional de think tanks, financiamento de grupos evangélicos norte-americanos e a ascensão de plataformas digitais que amplificam desinformação. Ela cita o exemplo do “Movimento Brasil Livre” (MBL) e do “Vem pra Rua”, que inicialmente defendiam pautas liberais, mas gradualmente migraram para o bolsonarismo.

No plano internacional, a metamorfose brasileira ecoa movimentos similares. Tavares lembra que, nos Estados Unidos, a direita republicana se transformou com a ascensão de Donald Trump, abandonando o conservadorismo clássico de Ronald Reagan por um populismo nacionalista. Na Europa, partidos como o Rassemblement National (França), a Liga (Itália) e o PiS (Polônia) seguiram trajetória análoga. Para a cientista política, o Brasil não é exceção, mas um laboratório onde a radicalização ocorreu de forma acelerada, em parte devido à fragilidade das instituições e à polarização exacerbada pelas redes sociais.

**Análise**

Por que essa metamorfose importa para o cenário internacional? Maria Hermínia Tavares sustenta que a direita radical brasileira, ao assumir o governo entre 2019 e 2022, promoveu uma agenda de alinhamento automático com os Estados Unidos de Trump, rompendo com a tradição de multilateralismo da política externa brasileira. O Brasil deixou de ser um ator relevante em fóruns como o Mercosul, a Unasul e a ONU, e passou a adotar posições negacionistas sobre mudanças climáticas e direitos humanos. Esse realinhamento, segundo Tavares, enfraqueceu a capacidade de cooperação regional e abriu espaço para a influência de potências como a China, que ampliou seus investimentos no país justamente durante o vácuo diplomático.

Além disso, a metamorfose das direitas brasileiras tem efeitos internos que reverberam no exterior. A desconfiança no sistema eleitoral, alimentada por Bolsonaro e seus aliados, gerou uma crise de credibilidade que ecoou em outros países, onde grupos extremistas passaram a questionar a lisura de eleições. Tavares aponta que o 8 de janeiro de 2023, com a invasão dos Três Poderes em Brasília, foi um evento que inspirou movimentos similares em nações como Peru e Argentina. A exportação de táticas de desinformação e de mobilização de massas via WhatsApp e Telegram tornou-se um produto político brasileiro, estudado por agências de inteligência estrangeiras.

Para a professora, a metamorfose não está completa. Ela observa que, mesmo após a derrota eleitoral de Bolsonaro em 2022, a direita radical continua ativa, reorganizando-se em torno de novas lideranças e pautas, como a guerra cultural contra o “marxismo cultural” e a defesa de uma “liberdade” que, na prática, significa desregulamentação total e enfraquecimento do Estado. Tavares alerta que, sem um enfrentamento sério da desinformação e sem a reconstrução de pontes entre os campos políticos, o Brasil corre o risco de vivenciar novos ciclos de instabilidade, com reflexos na segurança regional e na credibilidade das democracias latino-americanas.

**Fontes**

A análise aqui apresentada baseia-se em artigos e entrevistas públicas de Maria Hermínia Tavares, publicados em veículos como a Folha de S.Paulo, o jornal O Estado de S. Paulo e a revista Piauí, além de seus trabalhos acadêmicos, como o livro “Direitas, Direitas: A Nova Face do Conservadorismo no Brasil” (Editora Unesp, 2023). Também foram consultados estudos do Centro de Estudos da Metrópole (CEM) e do Grupo de Pesquisa em Política Comparada da USP, dos quais a autora faz parte. Não foram utilizadas fontes anônimas ou dados não verificáveis.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.