**Lead**
A cientista política Maria Hermínia Tavares, professora titular da Universidade de São Paulo (USP) e uma das mais respeitadas analistas da vida partidária brasileira, publicou uma análise contundente sobre a metamorfose das direitas no Brasil. No texto, ela argumenta que o campo conservador passou por uma reconfiguração radical nos últimos anos: deixou de ser um agrupamento ideológico coeso e se transformou em um ecossistema plural, com múltiplas vertentes que competem entre si, mas que, juntas, conquistaram hegemonia no debate público. A análise, veiculada em plataforma acadêmica de acesso aberto, não se baseia em pesquisas numéricas específicas, mas em observação sistemática do comportamento de lideranças, partidos e movimentos sociais.
**Contexto**
Para entender a tese de Tavares, é preciso recordar o percurso da direita brasileira desde a redemocratização. Durante os anos 1990 e 2000, o espectro conservador era representado principalmente por partidos como PFL (hoje União Brasil), PP e, em menor escala, o PSDB — este último, embora de centro-direita, tinha perfil social-democrata. A direita era, nas palavras da autora, “envergonhada”: evitava o rótulo, preferia se apresentar como “centro” ou “liberal”. O cenário mudou drasticamente com a ascensão do bolsonarismo a partir de 2014. A crise econômica, a Operação Lava Jato e a insatisfação com o PT abriram espaço para uma direita mais assertiva, que abraçava pautas como liberalismo econômico, conservadorismo moral e law and order.
Tavares destaca que, após o governo Jair Bolsonaro (2019-2022), a direita não se unificou, mas se fragmentou. Hoje, é possível identificar ao menos três grandes correntes: a liberal-radical, representada por economistas e políticos que defendem privatizações e redução do Estado; a conservadora-moralista, ligada a igrejas neopentecostais e pautas de costumes; e a autoritária-punitivista, que prega endurecimento penal e combate ao crime com mão de ferro. Essas vertentes, embora rivais em alguns pontos, convergem na rejeição ao que chamam de “esquerda woke” e na defesa de uma agenda de segurança pública e liberdade econômica.
A professora observa que essa metamorfose não é exclusividade brasileira. Fenômeno semelhante ocorre em países como Estados Unidos, França e Hungria, onde a direita tradicional cedeu lugar a movimentos populistas e nacionalistas. No Brasil, no entanto, a fragmentação tem um componente adicional: a ausência de um líder carismático unificador após Bolsonaro. A direita brasileira hoje é um campo de disputa entre pré-candidatos ao Palácio do Planalto, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o ex-ministro da Economia, Paulo Guedes, que ensaia um retorno à política partidária.
**Análise**
A análise de Maria Hermínia Tavares importa porque oferece um mapa conceitual para compreender as eleições de 2026 e o futuro da democracia brasileira. Se a direita está fragmentada, mas hegemônica, o centro e a esquerda precisam construir novas estratégias de comunicação e alianças. A autora sugere que a fragmentação pode ser tanto uma fraqueza — dificultando a formação de maiorias estáveis — quanto uma força, pois permite que o campo conservador ocupe nichos eleitorais diversos, desde o empresariado urbano até as periferias religiosas.
Outro ponto crucial é a relação entre essa nova direita e as instituições. Tavares alerta que algumas vertentes, especialmente a autoritária-punitivista, flertam com discursos antissistema e com a deslegitimação do Judiciário e do Legislativo. A tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, embora fracassada, revelou que parte desse espectro está disposta a romper com a ordem constitucional. A metamorfose, portanto, não é apenas uma mudança de programa, mas uma transformação na relação com a democracia liberal.
Para o leitor do FORTIS NEWS, fica a reflexão: a direita brasileira não é mais a mesma dos anos 1990. Ela se modernizou, se radicalizou e se diversificou. Compreender essa metamorfose é essencial para qualquer análise política minimamente séria. Maria Hermínia Tavares, com sua trajetória de décadas de pesquisa, oferece um roteiro lúcido e necessário.
**Fontes**
A análise baseia-se no artigo de Maria Hermínia Tavares intitulado “A metamorfose das direitas no Brasil”, publicado em plataforma acadêmica de acesso aberto (disponível para consulta em repositórios universitários). A autora é professora titular do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) e autora de obras como “O voto na direita: partidos e eleitores no Brasil contemporâneo”. Informações adicionais sobre o contexto político foram extraídas de reportagens do jornal Folha de S.Paulo e do site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sem citação de dados numéricos específicos.
Por Renan Filho · 2026-10-07