FORTIS
← FORTIS
Ciencia

Terceiro dia de férias e o celular não para: por que tantos empresários brasileiros têm medo de se desconectar do próprio negócio

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-16

Fenômeno da hiperconexão atinge donos de empresas no Brasil, que relatam dificuldade em se desligar do trabalho mesmo em períodos de descanso. Especialistas apontam riscos à saúde mental e à produtividade.

**Lead**

O terceiro dia de férias deveria ser sinônimo de praia, descanso e família. Mas para uma parcela expressiva de empresários brasileiros, a realidade é outra: o celular não para de tocar, notificações de aplicativos de trabalho se acumulam e a ansiedade de não estar presente na empresa cresce a cada minuto. Um levantamento recente sobre comportamento digital no ambiente corporativo revelou que muitos donos de negócios sentem um medo real de se ausentar da própria empresa, mesmo durante as férias. O fenômeno, que combina dependência tecnológica e cultura organizacional, acende um alerta sobre os limites entre vida pessoal e profissional no Brasil.

**Contexto**

A pesquisa, conduzida por institutos especializados em saúde ocupacional, ouviu centenas de empreendedores de pequenas e médias empresas em todo o país. Os resultados indicam que a dificuldade de se desconectar não é um problema isolado: uma fração considerável dos entrevistados admite responder a mensagens de trabalho durante as férias, e muitos relatam que o simples ato de desligar o celular gera desconforto e sensação de perda de controle. O estudo também aponta que o perfil mais afetado é o de empresários que acumulam funções operacionais e não delegam tarefas, o que torna a ausência um risco percebido para a continuidade do negócio.

O Brasil, segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), está entre os países com maior carga horária semanal de trabalho, e a cultura do “sempre disponível” é reforçada por aplicativos de mensagens instantâneas e plataformas de gestão remota. Especialistas em psicologia organizacional explicam que o medo de se ausentar está ligado a fatores como a falta de confiança na equipe, a ausência de processos bem definidos e a pressão por resultados imediatos. Em muitos casos, o empresário se sente insubstituível, o que gera um ciclo de estresse crônico.

Outro aspecto relevante é o impacto da pandemia de covid-19, que acelerou a digitalização dos negócios e borrou ainda mais as fronteiras entre casa e trabalho. Com o home office e o uso intensivo de ferramentas como WhatsApp e e-mail corporativo, muitos empreendedores passaram a trabalhar de forma ininterrupta, sem pausas reais. As férias, que antes eram um período sagrado de descanso, tornaram-se uma extensão do expediente, com o celular funcionando como uma âncora que impede o desligamento mental.

**Análise**

Por que esse medo persiste, mesmo quando o empresário sabe que precisa descansar? A resposta, segundo psicólogos do trabalho, está em mecanismos psicológicos como a “síndrome do impostor” e o “viés de disponibilidade”. O empreendedor teme que, se não estiver presente, algo dará errado — e a mente humana tende a superestimar a probabilidade de eventos negativos. Além disso, a cultura brasileira valoriza a figura do “empreendedor que nunca para”, associando sucesso à dedicação total. Esse ideal, no entanto, é insustentável a longo prazo.

As consequências são graves. Estudos na área de neurociência mostram que a falta de pausas adequadas reduz a capacidade de tomada de decisão, aumenta a irritabilidade e pode levar ao burnout. No Brasil, a síndrome de esgotamento profissional já é reconhecida como doença ocupacional pela Previdência Social, e os empresários estão entre os grupos de maior risco. A hiperconexão durante as férias também prejudica a qualidade do sono, o convívio familiar e a saúde cardiovascular.

Do ponto de vista econômico, a incapacidade de se desconectar pode gerar um paradoxo: o empresário que trabalha sem parar acaba sendo menos produtivo. A fadiga mental reduz a criatividade e a capacidade de resolver problemas complexos. Empresas que incentivam pausas reais e delegam responsabilidades tendem a ter equipes mais engajadas e resultados melhores. Portanto, o medo de se ausentar não é apenas um problema individual, mas um sintoma de uma gestão que precisa ser revista.

**Fontes**

As informações deste artigo baseiam-se em pesquisas de comportamento organizacional publicadas por instituições como a Sociedade Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho (SBPOT), relatórios da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre jornada de trabalho no Brasil, e estudos acadêmicos sobre nomofobia (medo de ficar sem celular) e síndrome de burnout. Especialistas em saúde mental e gestão empresarial foram consultados para contextualizar os dados, mas seus nomes foram omitidos para respeitar a privacidade e as regras de atribuição deste veículo.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.