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O Movimento Democrático Brasileiro (MDB), maior partido do país em número de filiados, viveu uma das mais profundas divisões de sua história recente durante o segundo turno das eleições presidenciais de 2022. Enquanto uma ala expressiva da legenda, liderada por figuras como Simone Tebet e Renan Calheiros, declarou apoio ao então candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT), outra corrente, encabeçada por políticos ligados ao Centrão e a redutos conservadores, decidiu remar ao lado de Jair Bolsonaro e, indiretamente, de seu filho Flávio Bolsonaro, senador e articulador político do clã. A cisão expôs as contradições internas de um partido que historicamente se movimenta como partido de aluguel, mas que naquela disputa precisou escolher lados de forma mais explícita.
**Contexto**
O MDB sempre foi um partido pragmático, capaz de abrigar desde a esquerda moderada até a direita conservadora. Essa característica, que lhe garantiu capilaridade e poder de barganha, tornou-se uma faca de dois gumes em um cenário de polarização extrema. No primeiro turno de 2022, o MDB lançou a candidatura própria de Simone Tebet, que obteve cerca de 5% dos votos. Tebet, após o resultado, anunciou apoio a Lula, argumentando que era necessário derrotar o bolsonarismo. Sua decisão foi seguida por parte da executiva nacional, mas encontrou resistência em estados como Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso, onde lideranças locais mantinham laços estreitos com o governo federal bolsonarista.
Além disso, a presença de Flávio Bolsonaro como articulador do palácio do Planalto reforçou os laços com setores do MDB que sempre se beneficiaram de emendas e cargos. O senador Renan Calheiros, por exemplo, embora tenha apoiado Lula, representa um grupo do MDB do Nordeste que, em outros momentos, negociou com o governo anterior. Já no Sul e Sudeste, prefeitos e deputados emedebistas optaram por não romper com Bolsonaro, temendo retaliações eleitorais futuras. Essa divisão não foi homogênea: o MDB do Pará, liderado por Jader Barbalho, apoiou Lula, enquanto o MDB de São Paulo, sob comando de Baleia Rossi, ficou dividido.
**Análise**
A cisão do MDB no segundo turno reflete um fenômeno mais amplo da política brasileira: a falência do centro político como força autônoma. Partidos como o MDB, que sempre flertaram com todos os lados, viram-se obrigados a tomar partido em uma disputa que opunha projetos de sociedade radicalmente distintos. A decisão de Simone Tebet de apoiar Lula, por exemplo, custou-lhe a ruptura com setores conservadores da sigla, mas a projetou nacionalmente como uma voz de oposição ao bolsonarismo. Por outro lado, a ala que permaneceu ao lado de Bolsonaro manteve acesso a recursos federais e base eleitoral em regiões onde o presidente ainda era forte.
Do ponto de vista estratégico, a divisão enfraqueceu o MDB como partido, mas fortaleceu individualmente os políticos que souberam navegar a crise. O partido perdeu a capacidade de ser o fiel da balança, papel que exerceu durante décadas. Agora, cada filiado precisa definir seu alinhamento de forma mais clara. Para Flávio Bolsonaro, a adesão de parte do MDB foi vital para consolidar a base governista no Congresso, especialmente em pautas de costumes e segurança pública. Para Lula, o apoio de Tebet e Renan Calheiros ajudou a legitimar a aliança com setores do centro e da centro-esquerda.
**Fontes**
As informações deste artigo foram extraídas de declarações públicas de lideranças do MDB, como Simone Tebet e Renan Calheiros, além de reportagens veiculadas por veículos da imprensa brasileira, incluindo O Globo, Folha de S.Paulo e UOL, que cobriram em detalhes as negociações de bastidores durante o segundo turno de 2022. Dados sobre filiações e posicionamentos foram obtidos junto a registros oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e perfis públicos de parlamentares.
Por Renan Filho · 2026-10-23