FORTIS
← FORTIS
Politica

Histórico de escândalos e notícias a conta-gotas levam eleitor a associar esquerda ao Master, dizem analistas

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-30

A imagem do grupo Master, dono de um banco digital em expansão, passou a ser associada à esquerda brasileira por parte do eleitorado, segundo cientistas políticos. Especialistas apontam que a estratégia de comunicação fragmentada e o histórico de controvérsias judiciais contribuíram para essa leitura.

**Lead**

A associação entre o grupo Master — dono de um banco digital que cresceu rapidamente no Brasil — e partidos de esquerda virou tema de análise entre cientistas políticos e estrategistas de campanha. Para especialistas ouvidos pela imprensa nacional, o eleitor passou a conectar o conglomerado financeiro a siglas de esquerda não por causa de uma aliança formal, mas por uma combinação de escândalos recentes, exposição seletiva de informações e o histórico de aproximação do empresário com o entorno do governo federal. A percepção, embora rejeitada pelo grupo Master e por integrantes da esquerda, ganhou força nas redes sociais e pode influenciar o debate público em 2026.

**Contexto**

O Master é controlado por um empresário que construiu fortuna no setor de varejo e crédito no Nordeste. Nos últimos anos, o grupo expandiu seus negócios para o Sudeste, com forte apelo digital e patrocínios de grande visibilidade. O banco, porém, passou a ser investigado em inquéritos que correm sob sigilo — o que alimentou especulações e vazamentos seletivos. Em 2023 e 2024, o nome do grupo apareceu ligado a transações suspeitas envolvendo empresas de fachada, de acordo com documentos obtidos por órgãos de fiscalização. O caso mais recente, revelado parcialmente pela imprensa, envolve supostas irregularidades em operações de antecipação de recebíveis e empréstimos consignados.

A ligação com a esquerda, no entanto, não é direta. O empresário sempre negou vínculo partidário e afirmou manter diálogo com todas as esferas de poder. Mas registros de visitas a ministros e participação em eventos com lideranças do PT e do PSB foram divulgados em momentos diferentes, criando um mosaico que o eleitor passou a interpretar como proximidade orgânica. Um dos episódios que mais repercutiu foi a presença do empresário em um jantar com ministros do Supremo Tribunal Federal e auxiliares do Planalto, em 2024. À época, a foto do encontro circulou amplamente, mas nenhum dos participantes comentou o teor da reunião.

Paralelamente, a estratégia de comunicação do Master sempre foi pautada por anúncios institucionais e notas curtas. Em vez de explicar os negócios com transparência, o grupo optou por silêncio em momentos de crise. Essa postura, segundo especialistas em comunicação pública, deixou um vácuo que foi preenchido por interpretações políticas. O resultado foi a consolidação de uma narrativa em que o Master seria um braço financeiro de um projeto de poder da esquerda brasileira.

**Análise**

A associação entre uma instituição financeira e um espectro político não é novidade no Brasil. Durante décadas, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal foram vistos como instrumentos de governos de diferentes orientações. A novidade, no caso do Master, é que se trata de um banco privado com crescimento meteórico e uma base de clientes formada majoritariamente por beneficiários de programas sociais e aposentados. Para analistas, o perfil do público-alvo do banco — que concentra operações de crédito consignado e microcrédito — é um dos fatores que explica a leitura política. “Quando uma instituição financeira cresce oferecendo crédito a quem historicamente depende do Estado, a percepção de que ela está ligada ao governo de plantão acaba sendo natural”, afirma um cientista político que preferiu não se identificar.

A ausência de um esclarecimento robusto sobre os escândalos também pesa. Em vez de uma resposta única e abrangente, o grupo emitiu comunicados lacônicos, muitas vezes negando apenas trechos específicos das denúncias. Esse comportamento de “notícia a conta-gotas” — em que informações são liberadas aos poucos, quase sempre por fontes anônimas — é típico de crises mal administradas e tende a aumentar a desconfiança pública. No campo político, a esquerda também não ajudou. Lideranças petistas e de partidos aliados evitaram comentar o caso com medo de associar a imagem do governo a um escândalo financeiro. O silêncio, porém, foi interpretado como conivência.

O impacto eleitoral dessa percepção é difícil de medir com precisão, mas analistas apontam que o tema pode reforçar a narrativa de que a esquerda brasileira mantém relações incestuosas com o capital financeiro — uma crítica que historicamente parte da direita. Em um ano eleitoral, esse tipo de associação pode corroer a base de confiança de candidatos identificados com o campo progressista, especialmente em estados do Nordeste, onde o Master tem forte presença. Por outro lado, há quem argumente que a associação é mais um fenômeno de bolha digital do que um sentimento amplamente difundido. Pesquisas qualitativas indicam que a maioria dos eleitores não sabe explicar o que é o Master, e a confusão entre o nome do grupo e as chamadas “masterclasses” políticas pode estar gerando ruído adicional.

**Fontes**

As informações deste artigo foram baseadas em reportagens publicadas por veículos como Folha de S.Paulo, O Globo e UOL, além de análises de cientistas políticos divulgadas no programa Revista Brasil, da Rádio Nacional, e em colunas do site Poder360. Os inquéritos mencionados correm sob sigilo, conforme registros do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O grupo Master foi procurado para comentar as acusações em ocasiões anteriores, mas não respondeu aos pedidos de esclarecimento até a publicação desta matéria.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.