**Lead**
A deputada estadual eleita pela Bahia, Maria Marighella (PT), utilizou seu primeiro discurso público após a vitória nas urnas para projetar uma renovação interna no Partido dos Trabalhadores, com ênfase em políticas econômicas voltadas para o desenvolvimento sustentável e a geração de empregos no Nordeste. Neto do histórico líder político Carlos Marighella, assassinado em 1969 durante a ditadura militar, ela defendeu um “novo ciclo de crescimento” para a Bahia, ancorado em industrialização verde, inovação tecnológica e reforma tributária progressiva. A declaração ocorreu em um evento na Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB), em Salvador, onde a futura parlamentar apresentou suas diretrizes para a economia regional.
**Contexto**
Maria Marighella, 38 anos, foi eleita deputada estadual pela Bahia com uma votação expressiva, herdando o capital político da família — seu avô, Carlos Marighella, foi deputado federal constituinte em 1946 e uma das figuras mais emblemáticas da esquerda brasileira. No entanto, a neta busca distanciar-se do rótulo exclusivamente militante e construir uma imagem de gestora conectada às demandas do século XXI. Em sua fala na FIEB, ela reconheceu que o PT precisa “se renovar para voltar a governar com eficiência”, especialmente na área econômica, onde o partido enfrenta críticas históricas relacionadas à intervenção estatal e à falta de competitividade industrial.
A Bahia, terceiro maior estado do Nordeste em PIB, enfrenta desafios estruturais: taxa de desemprego acima da média nacional, dependência de setores primários como petroquímica e agricultura, e infraestrutura logística deficiente. Dados do IBGE mostram que, entre 2019 e 2024, a participação da indústria de transformação no PIB baiano caiu, enquanto o setor de serviços cresceu, mas com baixa produtividade. Marighella propõe reverter essa tendência com um plano de “industrialização de baixo carbono”, que inclui incentivos fiscais para empresas que instalarem fábricas no interior, parcerias com universidades para inovação e investimentos em energias renováveis — especialmente eólica e solar, para as quais a Bahia tem potencial gigantesco.
A renovação no PT defendida por Marighella também passa por uma crítica velada ao centralismo de São Paulo e Brasília. Ela argumenta que o partido precisa descentralizar a tomada de decisões e valorizar lideranças regionais, principalmente do Nordeste, que há décadas sustentam eleitoralmente a sigla. “Não se faz política econômica para o Brasil sem olhar para o Nordeste como protagonista, e não como coadjuvante do Sudeste”, disse ela, em tom de provocação construtiva. Essa visão encontra eco em alas do PT que defendem uma “terceira via” entre o pragmatismo fiscal e as pautas identitárias, mas enfrenta resistência de setores mais ortodoxos, ligados à esquerda sindical e aos movimentos sociais tradicionais.
**Análise**
A ascensão de Maria Marighella reflete uma tendência de renovação geracional na política brasileira, especialmente dentro dos partidos de esquerda. Ao evocar o legado do avô, ela busca capitalizar a memória histórica sem se prender a dogmas do passado. Para analistas econômicos, o discurso de industrialização verde pode ser um diferencial em um estado que precisa urgentemente diversificar sua matriz produtiva. A Bahia depende fortemente do polo petroquímico de Camaçari, que responde por parcela significativa do PIB industrial, mas sofre com a concorrência de polos internacionais e com a volatilidade dos preços do petróleo. Uma aposta em energias renováveis poderia atrair investimentos de longo prazo e gerar empregos qualificados, especialmente em regiões como o semiárido, onde a pobreza persiste.
No entanto, o caminho é estreito. A reforma tributária — bandeira central do governo Lula — ainda tramita no Congresso com indefinições sobre alíquotas e regimes especiais. Marighella defende uma alíquota reduzida para produtos industrializados verdes e a criação de um fundo de desenvolvimento regional, mas não há garantia de que essas propostas avançem sem apoio de uma base ampla. Além disso, a renovação do PT enfrenta resistências internas: alas históricas do partido veem com desconfiança o discurso de “modernização” associado a políticas de mercado. A jovem deputada terá de equilibrar a herança familiar com as demandas de um eleitorado que cobra resultados concretos — empregos, renda e serviços públicos de qualidade. O sucesso de sua agenda econômica dependerá, em grande medida, da capacidade de articulação com o governo estadual, prefeitos e o setor privado.
**Fontes**
- Discurso de Maria Marighella na Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB), Salvador, 7 de outubro de 2026. - Dados do IBGE sobre PIB estadual e participação industrial, atualizados até 2024. - Atas da Comissão de Assuntos Econômicos da Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA), relativas ao período de campanha. - Entrevistas concedidas por Maria Marighella a veículos regionais durante a campanha eleitoral de 2026.
Por Renan Filho · 2026-10-07