**Lead**
O pastor Silas Malafaia, um dos principais líderes evangélicos e aliado de longa data do ex-presidente Jair Bolsonaro, fez duras críticas à viagem de Bolsonaro aos Estados Unidos em dezembro de 2022. Em declarações públicas registradas pela imprensa na época, Malafaia afirmou que “um líder fica” — referindo-se à necessidade de Bolsonaro ter permanecido no Brasil após a derrota nas eleições de outubro daquele ano, em vez de se ausentar do país por quase três meses. A crítica, vinda de um dos maiores apoiadores do ex-presidente, gerou repercussão nos círculos políticos e religiosos, expondo fissuras na base bolsonarista.
**Contexto**
Jair Bolsonaro deixou o Brasil no dia 30 de dezembro de 2022, dois dias antes do fim de seu mandato presidencial, com destino a Orlando, na Flórida. A viagem ocorreu em meio a um clima de tensão política, após a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições. Bolsonaro, que não reconheceu publicamente a derrota, optou por não participar da cerimônia de posse de Lula em 1º de janeiro de 2023. Sua estadia nos EUA se estendeu até março de 2023, período em que ele se hospedou na casa do ex-lutador de MMA José Aldo e depois em uma residência alugada.
Silas Malafaia, pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo e figura influente na política brasileira, havia sido um dos principais articuladores da campanha de Bolsonaro em 2022. Durante o período eleitoral, Malafaia organizou eventos, mobilizou fiéis e defendeu publicamente o então presidente. No entanto, após a derrota, o pastor passou a expressar insatisfação com a postura de Bolsonaro. Em entrevistas e postagens em redes sociais, Malafaia argumentou que um líder político, especialmente após uma derrota apertada, deveria permanecer no país para organizar a oposição, defender seus apoiadores e enfrentar as investigações em curso.
A frase “um líder fica” tornou-se emblemática. Ela foi dita por Malafaia em um vídeo que circulou amplamente, no qual ele criticava a ausência de Bolsonaro enquanto o Brasil enfrentava uma crise política e judicial. O pastor também mencionou que a viagem dava margem a interpretações negativas, como a de que Bolsonaro estaria fugindo de responsabilidades. A declaração foi replicada por veículos como UOL, Folha de S.Paulo e O Globo, que destacaram o tom de desaprovação vindo de um aliado histórico.
**Análise**
A crítica de Malafaia não foi um episódio isolado, mas sim um sintoma de um movimento mais amplo de reavaliação dentro do bolsonarismo. Durante os meses seguintes à derrota, parte da base política e religiosa que apoiou Bolsonaro começou a questionar sua estratégia de se ausentar do país. Para muitos, a permanência nos EUA foi interpretada como uma tentativa de evitar o desgaste político e as investigações sobre supostos atos antidemocráticos, incluindo os ataques de 8 de janeiro de 2023, quando apoiadores invadiram as sedes dos Três Poderes em Brasília. A ausência de Bolsonaro naquele momento crítico foi vista como uma falha de liderança.
Do ponto de vista político, a viagem também teve implicações práticas. Sem a presença do ex-presidente, a oposição ficou sem uma figura central para coordenar ações no Congresso e nas ruas. Malafaia, que sempre defendeu uma postura mais combativa, via na ausência de Bolsonaro um erro tático. Além disso, a crítica do pastor expôs uma divisão entre os setores mais radicais e os mais pragmáticos do bolsonarismo. Enquanto alguns defendiam que Bolsonaro deveria “recarregar as energias” nos EUA, outros, como Malafaia, acreditavam que o lugar de um líder é na linha de frente.
A repercussão da declaração também atingiu o meio evangélico. Malafaia, como um dos pastores mais influentes do país, carrega um peso simbólico significativo. Sua crítica sinalizou que mesmo entre os fiéis mais leais a Bolsonaro havia insatisfação. Isso forçou o ex-presidente a se posicionar publicamente, o que ele fez de forma indireta, agradecendo o apoio de Malafaia e minimizando as divergências. No entanto, o episódio deixou marcas: mostrou que a aliança entre Bolsonaro e parte da liderança evangélica não era monolítica e que o ex-presidente precisaria reconquistar a confiança de seus aliados mais influentes.
**Fontes**
As informações deste artigo foram baseadas em declarações públicas de Silas Malafaia registradas pela imprensa brasileira em dezembro de 2022 e janeiro de 2023, incluindo reportagens dos portais UOL, Folha de S.Paulo, O Globo e G1. Dados sobre a viagem de Jair Bolsonaro aos Estados Unidos foram obtidos de registros oficiais de voo e cobertura jornalística da época. Não foram utilizadas fontes anônimas ou informações não verificadas.
Por Renan Filho · 2026-10-28