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Em abril de 2022, a vice-governadora Mailza Assis assumiu o governo do Acre por alguns dias, durante uma agenda oficial do governador Gladson Cameli fora do estado. Com o gesto, ela se tornou a segunda mulher a ocupar o cargo mais alto do Poder Executivo acreano, repetindo um feito que não ocorria desde a década de 1980. Mais do que um ato protocolar, a passagem de Mailza pelo comando do estado merece ser lida como um símbolo do longo caminho que as mulheres ainda precisam percorrer na política brasileira.
**Contexto**
Mailza Assis é enfermeira de formação e construiu sua trajetória política no interior do Acre. Natural de Sena Madureira, ela foi eleita vice-governadora na chapa de Gladson Cameli em 2018, pelo Partido Progressista. Antes disso, atuou em espaços de gestão local e se envolveu com projetos sociais na região. Sua eleição como vice já representou um avanço em um estado onde a presença feminina nos altos cargos do Executivo sempre foi rara.
A primeira mulher a governar o Acre foi Iolanda Fleming, em 1986, em um contexto de transição política durante a redemocratização. Iolanda era vice-governadora e assumiu o cargo após a renúncia do titular para concorrer ao Senado. Na época, o Brasil vivia um momento de efervescência política, e a ascensão de uma mulher ao comando de um estado era praticamente inédita no país. Trinta e seis anos depois, Mailza Assis repetiu a história, ainda que em circunstâncias diferentes.
A ausência de governadores titulares é comum em estados brasileiros, especialmente quando eles viajam ao exterior ou cumprem agendas prolongadas. Nesses casos, o vice assume com plenos poderes, assina decretos, autoriza despesas e representa o estado. Foi o que ocorreu com Mailza. Durante sua rápida gestão, ela cumpriu a pauta institucional prevista, mas o impacto simbólico foi muito maior.
**Analise**
A passagem de Mailza Assis pelo governo do Acre não pode ser tratada apenas como um fato burocrático. Em um país onde as mulheres são mais da metade do eleitorado, mas ocupam menos de 15% das prefeituras e cerca de 18% das cadeiras do Congresso Nacional, cada vez que uma mulher assume um cargo de liderança máxima, ainda que interinamente, o episódio ganha relevância especial.
O Acre, assim como boa parte da Amazônia Ocidental, tem uma cultura política fortemente marcada pela presença masculina. As mulheres frequentemente atuam nos bastidores, em funções de apoio, ou em cargos de menor visibilidade. A ascensão de Mailza ao posto de governadora, ainda que temporária, quebra essa lógica e abre espaço para que outras mulheres se enxerguem em posições de comando. A representatividade importa porque ela transforma referências: quando uma menina vê uma mulher governando um estado, ela passa a entender que o cargo também pode ser ocupado por alguém como ela.
É verdade que a vice-governadora não chegou ao cargo por mérito próprio de uma campanha majoritária. Ela foi eleita como parte de uma chapa encabeçada por um homem, o que ainda é o padrão dominante no Brasil. Mesmo assim, sua atuação como vice e a oportunidade de assumir o governo demonstram que o espaço feminino na política acreana está se ampliando, ainda que lentamente. A presença de mulheres em cargos executivos é fundamental para que as políticas públicas reflitam melhor as necessidades da população, especialmente nas áreas de saúde, educação e assistência social, onde as mulheres são a maioria das usuárias e também das trabalhadoras.
O episódio também serve para lembrar que a igualdade de gênero na política não é apenas uma questão de justiça, mas de qualidade institucional. Estudos de ciência política mostram que a maior presença feminina em parlamentos e governos tende a estar associada a mais transparência e a uma agenda pública mais atenta a temas sociais. Embora não se possa fazer generalizações apressadas, a diversidade nos centros de decisão enriquece o debate e reduz o risco de que interesses de grupos específicos dominem o processo político.
No caso do Acre, a experiência de Mailza Assis pode ser um ponto de partida para que os partidos locais levem mais a sério a candidatura de mulheres a cargos majoritários. Atualmente, a legislação eleitoral exige reserva de recursos e tempo de propaganda para candidatas, mas a aplicação prática ainda esbarra em resistências internas das legendas e em estruturas patriarcais que dificultam o lançamento de nomes femininos competitivos. A trajetória de Mailza mostra que é possível, mas também evidencia o tamanho do desafio.
**Fontes**
A informações sobre a trajetória de Mailza Assis, a gestão interina em 2022 e o histórico de Iolanda Fleming foram baseadas em reportagens veiculadas por Agência Senado, G1 e portal oficial do governo do Acre, além de registros históricos públicos sobre os governos do estado.
Por Renan Filho · 2026-10-25