**Lead**
A vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, em novembro de 2026, reacende o debate sobre os rumos da relação entre Brasil e Estados Unidos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que já governou o país em dois mandatos anteriores e retornou ao poder em 2023, terá que lidar com um parceiro histórico que adota uma postura agressiva em comércio e clima. O encontro entre os dois líderes, previsto para os próximos meses em Washington, deve definir o tom de uma parceria que movimenta bilhões de dólares em exportações e envolve temas sensíveis como a preservação da Amazônia, a reforma da Organização Mundial do Comércio (OMC) e a segurança regional.
**Contexto**
A relação entre Brasil e Estados Unidos sempre foi marcada por altos e baixos. Durante o primeiro governo Trump (2017-2021), os laços foram estreitados com o então presidente Jair Bolsonaro, que alinhou sua política externa à Casa Branca. Com a volta de Lula ao Planalto, a dinâmica mudou: o brasileiro priorizou a integração sul-americana, o fortalecimento dos BRICS e uma agenda ambiental ambiciosa, contrastando com o discurso nacionalista de Trump. Agora, com a nova vitória republicana, o cenário se torna ainda mais incerto.
Trump derrotou a candidata democrata Kamala Harris em uma eleição acirrada, prometendo impor tarifas sobre importações, rever acordos multilaterais e retirar os EUA de compromissos climáticos — como já fez no primeiro mandato ao abandonar o Acordo de Paris. Lula, por outro lado, posicionou o Brasil como protagonista na luta contra o aquecimento global e busca atrair investimentos estrangeiros para projetos de energia limpa. A contradição entre as duas visões é evidente.
No campo comercial, os Estados Unidos são o segundo maior parceiro do Brasil, atrás apenas da China. Em 2025, o intercâmbio bilateral ultrapassou US$ 75 bilhões, com destaque para exportações de ferro, aço, aeronaves e produtos agropecuários. Trump já sinalizou que pretende sobretaxar o aço brasileiro, repetindo a medida adotada em 2018, o que poderia gerar retaliações e prejudicar setores industriais brasileiros. Além disso, a pauta ambiental entra em rota de colisão: enquanto Lula defende o Fundo Amazônia e metas ousadas de desmatamento zero, Trump questiona a ciência climática e estimula a exploração de combustíveis fósseis.
**Análise**
O que está em jogo vai além de números comerciais. A relação entre Lula e Trump será um teste para a autonomia brasileira na política externa. Durante a campanha, Trump criticou a aproximação do Brasil com a China e os BRICS, classificando o bloco como uma ameaça aos interesses americanos. Lula, por sua vez, defendeu a ampliação do grupo e a criação de uma moeda alternativa para transações entre os países emergentes. Esse embate ideológico pode se traduzir em pressões concretas, como a suspensão de preferências tarifárias ou o bloqueio de financiamentos de agências multilaterais.
Outro ponto sensível é a cooperação em segurança e defesa. Os Estados Unidos mantêm uma base de rastreamento espacial em Alcântara (Maranhão) e têm acordos de assistência militar com o Brasil. Trump já afirmou que pretende endireitar as contas da OTAN e exigir maior contribuição dos parceiros. Embora o Brasil não seja membro da aliança, a dependência de tecnologia americana na área de defesa pode ser usada como instrumento de barganha. Especialistas avaliam que Lula terá que fazer concessões para evitar uma crise diplomática, mas sem abrir mão de suas bandeiras históricas, como a integração regional e a defesa do multilateralismo.
Para o Brasil, o cenário mais provável é o de uma relação pragmática, mas fria. Lula tentará manter canais abertos com Washington, explorando pontos de convergência, como a luta contra o narcotráfico e a promoção de investimentos em infraestrutura. Já Trump deverá adotar uma postura de confronto seletivo, mirando setores onde o Brasil é competitivo. O resultado dependerá da habilidade diplomática de ambos e da capacidade de evitar que diferenças ideológicas paralisem a agenda bilateral.
**Fontes**
- Dados de comércio bilateral: Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e Departamento de Comércio dos EUA. - Informações sobre políticas de Trump: discursos de campanha e documentos oficiais do Partido Republicano. - Posicionamento de Lula sobre meio ambiente e BRICS: discursos na ONU e declarações à imprensa. - Análises de especialistas em relações internacionais: artigos publicados no Council on Foreign Relations e no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). - Reportagens da Reuters, BBC Brasil e Agência Brasil sobre as eleições americanas e seus impactos.
Por Renan Filho · 2026-10-26